Opinião

No vinho a verdade

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

11 de outubro de 2021

Vinho de boa safra é como certas pessoas. Quanto mais maturado (ou envelhecido) melhor. O viticultor sabe disso. Vinicultor, idem. E não fazem pouco. O primeiro cuida do plantio da uva; o segundo, do preparo do vinho e as adequações. A etapa importante na elaboração de um bom vinho é a busca do equilíbrio entre o aroma e o sabor. O que se pode chamar de evolução da bebida mediante processo de fabricação. E não adianta fugir à regra. O manejo técnico obedece a ciclos de atividades.

É como ocorre na vida das pessoas. Tudo na vida é regido por etapas e processos. Umas se adaptam ao meio em que vivem, outras não. Algumas se agarram e se atiram em terrenos inóspitos e pouco recomendáveis. Para não dizer que entram em fria. De gaiato sem navio. Ouço nas mídias e vou assimilando: “Comem gelados com a testa”. E, óbvio, acabam por estragar o sentido da vida. Em decorrência comprometem a qualidade de uma existência voltada para sonhos perseguidos.

Depois não adianta chorar. Ainda que tentem mudar o curso do rio para a melhoria de lençóis freáticos. Por mais que lutem na insensibilidade da crueza. Por desespero e desordem, no inevitável se ferram. O preponderante é o amadurecimento através do equilíbrio. Nisso entra a pessoa madura. A que se coloca em posições firmes ante alvos e voos a serem atingidos.

Infelizmente, há muitos seres caindo de asa-delta de bobeira. Não apreciam nada além de endurecidos chãos. Outros, não. Agem com inteligência e perspicácia. Inteligência madura. Para os amantes da boa psicologia, a hipótese da inteligência emocional. Sentido genérico “a capacidade do ser humano de lidar com as emoções”. E quem disse que é fácil lidar com as emoções?

Certas pessoas conseguem dominar com sabedoria as emoções. Convivem com os dramas naturais do cotidiano até com relativa facilidade. Não se tornam presas fáceis de determinadas situações. Em especial no que diz respeito a atos gravitacionais no campo amoroso. Se bem que de repente a coisa desanda. Pergunta que ora se faz, em decorrência circunstancial. E obedece a roteiro preestabelecido. O que, em absoluto, não foge ao padrão ético – longe do etílico. Onde se estabelece a bela criatura de incontáveis tintins?

“In vino veritas”, ou seja, no vinho está a verdade. Até aí nada de mais. Locução (ou frase) latina que dá conotação do real: quem se etiliza além da conta solta a língua, o riso. Curiosamente, outras coisas vão junto. Cachorro sem dono. E se perde o siso. No sentido de juízo e prudência. Daí a perda, sem perdão. Coitado. De fácil entendimento, quem bebe muito perde não só a vergonha de falar e fazer certas coisas como também fica propenso a se expor. Não raro cai no ridículo. Quem manda. Não sem razão é preciso ter postura enérgica frente à bebida alcoólica. Muitos não sabem que atitude tomar. Optam pelo álcool, pura e simplesmente. Ou com limão. Mas sem a renúncia do álcool. Dele não se abstém.

Ao analisar a frase “in vino veritas”, muito conhecida por estudiosos do latim, de se agregar a expressão “in aqua sanitas”: ‘na água está a saúde’. Tradução de não se pagar nada por algo tão importante quanto saber a curvatura exata da galáxia de Andrômeda. E se espiral ou não. Ora, ora! Cultura inútil. A expressão por completo ficaria assim: “In vino veritas, in aqua sanitas”. Para quem assim o desejar, no gozo e desfrute das interpretações, há muitas outras. Talvez uma bem razoável é a de que uma pessoa quando bebe, por mais que se cuide não consegue mentir com facilidade. É pega no contrapé. Explícita feiura. Já imaginou?

O mano Zé Negrinho, de saudosa memória – ele não escondia de ninguém que apreciava umas e outras mais –, tinha em arsenal repente tiradas de serem incluídas no rol das coleções literárias. Coletâneas, por assim dizer. Convidado para festas familiares, em que delas participassem crianças, jovens e os pouco afeitos ao álcool, de imediato declinava do convite. Bem à sua maneira, dizia: “Em festa de amadores, profissional não entra”. E não ia. Também pudera.

O eterno cantor de Marta, no tempo que aqui passou, manteve-se firme na proposta de que no vinho estava a verdade. A sua verdade. A verdade de outros pouco importava. Ainda que nos entrepostos: amadores, profissionais e os faz de conta. Não ligava a mínima. Não por ausência de empatia. Mais por escrúpulo de não se meter em vida alheia. Estilo de vida. Disso cuidava bem. A sua já lhe bastava. No contexto terreno aqui viveu 56 bons anos. Depois disso, em disputada frequência, a saudade vem bater palmas à soleira de casa, também no quintal da Três de Maio, talvez para dizer que ele – assim como Elvis Presley – não morreu.

Bem verdade, Zé Negrinho não morreu. Deve estar por aí, violão às costas, correndo da polícia. Ou, quem sabe, da febre hostil do Monsenhor Messias. Ele que dizia, aos brados:“Longe de Zé Negrinho cantar nos meus ofícios de casamento”. No engana que eu gosto, ricos e influentes batiam o pé, exigiam, tiravam-no da zona de conforto. No respeito à mantença paroquial, Zé Negrinho cantava. E bonito. Se bem me lembro, entre outras: “Você é isso uma beleza imensa/ Toda a recompensa de um amor sem fim”. (De Luiz Rattes Vieira Filho, Caruaru/PE, ‘Paz do Meu Amor’, 1963).

Quando se acorda ao som de linda serenata de tempos idos e sonhos líricos voltados. De fato, no vinho a verdade. Num livre tagarelar-se, precisamos retomar tempos não vencidos. Mesmo que nada disso vai acabar com a crise econômica. Mas… Ora essa. Nada de entregar os pontos. Einstein disse que tempo e espaço praticamente é o mesmo. Já a arte – manifestação universal – é a criação de algo, carro-chefe as emoções; harmonia a fonte de trabalho. O objetivo: a busca pela estética e beleza. O aplauso, se vier, para depois.
PS: Para Marcelo Andrade e José Roberto Cirino Rosa.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, escreve aos domingos nesta coluna.([email protected])