Opinião

Nem um e nem outro

11 de março de 2021

O mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes” – Roberto Campos

A recente decisão do ministro Fachin, anulando todas as sentenças proferidas pela Justiça Federal de Curitiba, sem dúvida alguma movimenta a vida política do país. Longe de inocentar o ex-presidente Lula, até então condenado em até 3 instâncias, a decisão, sem entrar no mérito processual, aponta falha, arguindo incompetência para aquele foro de julgar tais processos que deverão voltar a estaca zero e sendo reiniciado pela Justiça Federal de Brasília.

Sem analisar juridicamente o feito do ministro Fachin, não posso aqui deixar de falar, o que qualquer cidadão leigo consegue observar com propriedade, sobre o absurdo lapso de tempo praticado por Sua Excelência, dando margens às mais variadas interpretações. O que pode justificar o transcurso de quase um lustro das decisões proferidas e confirmadas em instâncias superiores, para desmoronar toda a construção jurídica praticada?

Mas é inegável, caso a análise pelo Plenário do STF confirme a decisão do ministro, que a presença do ex-presidente sai do campo hipotético, para ter condições concretas de ser apresentada por seu partido e com isso as variáveis passam a ser diferentes. Acredito até que, neste momento, as pesquisas indicarão a frente do atual presidente da República, mas a militância esquerdista, até então reclusa e desanimada, voltará atuar de forma efetiva e barulhenta, acirrando ainda o debate político do país.

Como estou aqui, por generosidade da redação deste jornal, para emitir minhas opiniões, declaro que, no caso da possível polarização entre Bolsonaro e Lula, sem a menor dúvida e convicto de tomar a decisão acertada, dedicarei meu capital político que se resume em meu voto, ao atual presidente.

Lula, em quem votei em seu primeiro mandato e como já disse aqui, jogou fora todas as possibilidades de entrar para a história como um presidente que reverteu ou minimizou o quadro de injustiça social brasileira para se entregar à sedução, ao que parece irresistível, de práticas ilícitas, permitindo a uma verdadeira quadrilha saquear o governo e as estatais, como “nunca na história deste país”.

Entretanto, não podemos deixar de apontar que, especialmente a população menos favorecida morando nas periferias e nos morros e favelas, que antes somente conhecia o Estado quando a polícia invadia suas casas prendendo seus filhos, passou a conhecer um Estado, que adotou medidas que acudiam a condição de penúria de milhões de pessoas flageladas pela fome e condenadas ao abandono.

Mesmo que tais medidas não tenham sido estruturantes, sendo algo parecido com caridade ou assistencialismo, elas permitiram que o então presidente obtivesse um altíssimo grau de aprovação e apoio, capaz de esquecer até mesmo que “dormia, a nossa Pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações”.

Muitas pessoas que nunca passaram por exclusão social, jamais compreenderão o porquê desse fenômeno eleitoral. Ao final das contas, nós que sonhamos em eleger um operário combativo que enfim mudaria os rumos do Brasil, experimentamos a frustração com os malfeitos praticados e atestamos agora, que a esperança gerou o medo do retorno de tanta patifaria e devassidão. Lula terá como maior adversário, o antipetismo, especialmente da classe média, exasperada com tudo o que aconteceu, e cujo apoio é fundamental para o êxito eleitoral.

Já o presidente Bolsonaro, traz consigo a admirável postura de não roubar e não permitir que roubem em seu governo, iniciando uma nova era de reconstrução da infraestrutura envelhecida e ruída do país, de fazer o dinheiro render mais, como por exemplo nos lucros das estatais até então acumulando gigantescos prejuízos, mantendo e até ampliando o Bolsa família, reforçado pelo auxilio emergencial durante a pandemia, rendendo-lhe avanços de sua popularidade, e agora também escorado nos mesmos pilares do assistencialismo.

Bolsonaro, por outro lado, tem perdido espaço com as trapalhadas de seus filhos, suas falas disparatadas e até obscenas, sua imperícia política e seu comportamento politizado e muitas vezes contraditório no enfrentamento à pandemia, o que provoca perda de apoio exatamente da classe média, onde residem os mais eficientes formadores de opinião, que transitam, tanto na elite, quanto junto aos componentes da base da pirâmide social.

Sob ponto de vista ideológico (ora bolas, a ideologia!), o Brasil desde a era Collor surfou com Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, nas ondas do neoliberalismo e nem mesmo os mais diligentes cientistas políticos serão capazes de negar isto com argumentos convincentes. Independentemente das intenções de Lula expressas no Foro de São Paulo, ou a agenda ultraliberal de Paulo Gudes, no campo ideológico tivemos sempre o mesmo tom praticado nos diversos mandatos, salvo exíguas diferenças. Governar é muito diferente de sonhos, intenções e ideologias políticas.

O recado das eleições de 2020 para Prefeito parece que terá continuidade nas eleições presidenciais de 2022. Como outros presidenciáveis não decolarão, tais como Dória, que sequer terá prestígio em seu estado, Moro que desmoronou às custas de suas próprias atitudes, Ciro Gomes cujo destempero o descredencia e Huck escorado somente em seu patético programa de auditório, mostrando um frívolo discurso, tenho a impressão que a população, alquebrada pela dicotomia política reinante, está a espera do surgimento de um “tertius”, de um nome novo, que traga consigo um currículo e história irretocáveis e que tenha condições de se apresentar ao país, de forma competente e harmoniosa, um projeto de união nacional, relegando ao segundo plano, todo o extremismo e fanatismo político, do qual já nos entediamos. O Brasil espera por isso!

GILBERTO ALMEIDA é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna