Opinião

Na estrada, eternamente jovem

POR ALEXANDRE MARINO

21 de Maio de 2021

O pequeno Robert nasceu de uma família judaica de classe média no interior dos Estados Unidos, e passou sua infância em Hibbing, cidadezinha de 17 mil habitantes, onde começou a tocar violão aos 12 anos. Adolescente, frequentava lojas de discos para ouvir blues e rock ou se trancava no quarto para tocar guitarra. Era leitor assíduo dos poetas da geração beat, que revolucionaram a literatura norte-americana na década de 1950 e inspiraram a juventude a pôr o pé na estrada. E o próprio Robert pegou a estrada, até chegar a Nova York, aos 20 anos.

Assim começa a história do mais importante poeta do rock: Bob Dylan, que neste 24 de maio de 2021 completa 80 anos. Compositor, ator, roteirista e, pasmem, artista plástico, criador de uma nova linguagem para um estilo musical que na década de 1960 entrava em decadência, Bob despertou a atenção de um público consciente, que se rebelava contra as injustiças sociais, as guerras, os preconceitos e a violência. Sem que houvesse planejado, Bob Dylan se transformou numa espécie de guia para um movimento de rebeldia que levava a juventude da época a propor novas formas de comportamento – e a protestar nas ruas. Dylan interpretou o mundo e lhe arrancou as máscaras, criou personalidades e as demoliu em seguida, cortou suas próprias raízes para não pertencer a lugar algum.

Artista visionário, ambíguo, misterioso, imprevisível, contraditório, polêmico – os adjetivos que tentam explicá-lo mais confundem que o revelam. Mas certamente Dylan permaneceu acima do tempo. “Que você cresça e seja justo / que cresça verdadeiro / que saiba sempre a verdade / e veja as luzes que te cercam / que você tenha sempre coragem / fique ereto e seja forte / (…) / que você tenha uma base firme / quando vierem os ventos da mudança / (…) / que você fique jovem para sempre” (“Forever young”, canção de 1974).

Bob Dylan é o primeiro e único artista deste planeta a ganhar os cinco prêmios mais importantes concedidos em suas áreas de atuação. Ao saudá-lo como vencedor do Nobel de Literatura, em 2016, em cerimônia em que ele era o grande ausente, o acadêmico Horace Engdahl o descreveu como “um cantor digno de um lugar ao lado dos gregos e dos românticos, junto aos mestres esquecidos de padrões brilhantes”. Ele venceu também o Oscar, o mais importante do cinema mundial (2001); Grammy, para profissionais da indústria da música (12 vezes, a partir de 1973); Globo de Ouro, para profissionais do cinema e da televisão (2001). Em 2008 recebeu o Pulitzer, da Universidade de Columbia, “por sua contribuição à música popular e ao impacto de sua obra na cultura dos Estados Unidos”.

O primeiro impacto foi a canção “Blowin´ in the wind”, eterno hino dos pacifistas, de 1962. “Quantos caminhos deve um homem percorrer antes que o chamem de homem? Quantas vezes devem voar as balas de canhões antes de serem banidas para sempre? Quantos anos pode um povo existir antes que lhe permitam ser livre? Quantas mortes há de haver antes que saibam que gente demais já morreu?” No mesmo ano, também cantou: “Vocês armam os gatilhos pros outros dispararem / relaxam e observam quando os mortos se acumulam / vocês se escondem nas mansões enquanto o sangue dos jovens / escorre de seus corpos e se enterra na lama (“Masters of war”).

Ao longo desses 80 anos, ou 60, a contar de seu primeiro disco gravado, Dylan escreveu centenas de letras de alto teor poético, com linguagem radicalmente pessoal. Fez canções de protesto, cantou amores fracassados, descreveu viagens, contou sonhos e histórias fantásticas, relatou episódios trágicos como um bom repórter. Personagens abandonados pela sorte povoam sua poesia, guiados por elementos e seres da natureza – ventos, trovões, tempestades, anoiteceres, chuvas, gaivotas, rios – ou oprimidos por sistemas injustos.

Desde 1988 Dylan vive na estrada, viajando por todo o mundo, fazendo mais de 100 shows por ano. O “Never Ending Tour” foi interrompido pela pandemia, mas ele continua em ação. No ano passado, lançou o mais recente de seus incontáveis álbuns, “Rough and rowdy ways”, onde canta: “Sou um homem de contradições, sou um homem de muitos humores, eu contenho multidões” (“I countain multitudes”). Aos 80, Bob Dylan é a própria estrada.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.