Opinião

Livro, portal para a liberdade

POR ALEXANDRE MARINO

2 de julho de 2021

As tecnologias eletrônicas provocam fascínio, mas o livro é uma das tecnologias mais úteis, versáteis e duradouras que a humanidade já criou. É perfeito: tem portabilidade, fácil referência e alta capacidade de armazenamento de dados. Não depende da energia elétrica nem de conexão com internet, é imune a vírus, não perde dados e está sempre disponível. Além disso, o livro é fonte e medida do conhecimento.

Paradoxalmente, os livros também podem dar a medida da estupidez humana. São comuns, ao longo da história da humanidade, relatos sobre sua destruição. Em 1933, seis anos antes do início da Segunda Guerra Mundial, teve início na Alemanha uma sequência de queimas de livros, assim que Hitler nomeou Joseph Goebbels ministro da Educação do Povo e da Propaganda. Goebbels propôs às organizações estudantis nazistas a destruição de livros.

Logo em seguida estudantes da Universidade de Colônia saquearam livros de autores judeus na biblioteca da instituição e os queimaram. Eventos desse tipo se sucederam, alguns até com participação de crianças. Não foi à toa que o poeta alemão Heinrich Heine, nascido em 1797, profetizou: “Regimes que queimam livros, logo começam a queimar pessoas.”

Desde a destruição da lendária Biblioteca de Alexandria, que pode ter ocorrido entre os séculos V e VII d.C., inúmeros regimes autoritários avançaram contra os livros, assim como a Igreja, que em várias ocasiões fez seus índices de livros malditos ou os transformou em cinzas. Livros foram banidos e destruídos em países árabes, na Europa, em Cuba, nos Estados Unidos, na Ásia.

Em anos recentes, ditaduras militares na América Latina – notadamente no Brasil, Argentina e Chile – destruíram livros e bibliotecas. E, no entanto, eles sobreviveram, seja nas grandes bibliotecas, seja em forma de raridades em esconderijos. A busca pelo conhecimento e a liberdade de expressão têm vencido o obscurantismo.

No Brasil destes tempos tenebrosos, são sintomáticos ­– e preocupantes – os fatos que acontecem na Fundação Palmares, órgão do governo criado para preservar a cultura afro-brasileira. Seu presidente, Sérgio Camargo, um negro que tem combatido a luta contra o racismo, decidiu eliminar a maior parte da biblioteca da instituição.

De um acervo de 9 mil livros, ele fez um índice de 5.300 títulos que “promovem doutrinação marxista, pedofilia, sexo grupal, pornografia juvenil, sodomia e necrofilia”, um evidente absurdo para justificar seu apreço pela ignorância. O expurgo contém obras de autores clássicos, como Karl Marx, H. G. Wells, Stendhal, Eça de Queiroz, Max Weber, Eric Hobsbawn e Luís da Câmara Cascudo.

Sérgio Camargo é filho de Oswaldo Camargo, respeitado poeta, ficcionista, crítico, historiador de literatura e ativo integrante do Movimento Negro, que encara com altivez e serenidade o fato de ter gerado um monstro. Seu filho não passa de mero capacho de um governo que odeia a arte, a ciência e o conhecimento. Apenas executa o seu papel, como um fantoche em mãos demoníacas.

A ditadura militar, que tanta nostalgia provoca no atual governo, destruiu enorme quantidade de livros e outros suportes do pensamento e da cultura. Há registros de uso do incinerador do Aeroporto Internacional de Brasília para a queima de revistas, fitas magnéticas, livros e filmes, por solicitação do Ministério da Justiça, segundo documentos da própria Polícia Federal. Isso sem falar no Departamento de Censura, que decidia por conta própria o que o brasileiro deveria ler, ver e ouvir.

Livros não são aplicativos cerebrais. O livro dialoga com o leitor e lhe apresenta um conhecimento acumulado ou reflexões sobre enorme gama de assuntos. Ninguém é obrigado a ser comunista para ler Karl Marx, mas deve ler sua obra se quiser aprofundar-se no estudo da economia, ainda que discorde de suas teorias. A leitura é um exercício cerebral que estimula a capacidade de reflexão, discernimento e concentração. Em outras palavras, proporciona a liberdade de pensamento, que governos autoritários rejeitam.

A forma atual do livro foi criada entre os séculos II e III, com o nome de códice, quando substituiu os primitivos rolos. A transformação desse objeto mágico foi acompanhada pela transformação da leitura, feita em voz alta por oradores treinados, no mundo antigo, até que os monges da Europa Medieval adotassem a leitura silenciosa, como forma de devoção. A evolução das artes gráficas gera livros cada vez mais sedutores. A história do livro é puro encantamento.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.