Opinião

Liberdade e sensatez

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

22 de março de 2021

A história de acreditar ou não nos medicamentos, e se vão ser úteis para se contrapor a uma doença agressiva, no caso o Coronavírus, tenho comigo que já vi isso em algum lugar. Foi numa obra machadiana. Refiro-me a Machado de Assis, no meu sentir, o maior escritor da língua portuguesa de todos os tempos. Foi em Balas de Estala & Crítica (1883). Machadinho, como era conhecido, chega a mencionar: “Não ignoro que os doentes, por estarem doentes, não perdem o direito à liberdade”.

Na ocasião – lá se vão muitos bons anos – o autor de Dom Casmurro tratava da liberdade de escolher entre a alopatia e a homeopatia. Tempo e modo, dois sistemas e duas escolas bem diferentes. Chegou-se até mesmo a citar um conhecido médico que aplicara alopatia aos adultos e a homeopatia às crianças. No conceito do bem-comportado médico, era de que não se devia martirizar uma pobre criança com o método mais agressivo. Aos adultos a cura; às crianças a cura, porém com ternura.

Faça-se, então, e por dever de estudo, distinção entre um e outro experimento. Enquanto a homeopatia destina-se a pessoas sadias, por sua vez a alopatia direciona-se a pessoas doentes e animais. E há também um objeto a ser considerado: a utilização das doses. Deve ser observado o limite da toxidade. Afinal, nas experimentações científicas, caso típico da alopatia, há que se observar os efeitos colaterais produzidos.

No texto machadiano, há essa preocupação com a dosimetria. E faz sentido. O remédio que cura é o que também mata. Depende da dose. Não posso deitar falação de uso comum, porque fui jogado às covas dos leões por um amigo de longa data. Roberto Coronel, leitor assíduo, inteligente, culto e bem centrado. Em apreciação objetiva e sincera, diz que faço uso de lugares comuns quando escrevo. Não sem razão.

Nessa questão, envolvendo as duas coisas — tanto a alopata quanto a homeopata. Ou até mesmo quando envolve o fator dosimetria, não posso deixar de utilizar um clichê, bem estereotipado. Como não usá-lo? Quase dever de ofício.
Como não dizer a obviedade da crença de que “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. Está aí. Um baita clichê. “Em doses exageradas ambos podem matar, e em doses insuficientes, se não matam, também não curam”.

Na argumentação lógica, deve-se valer apenas da proposição de que a diferença do remédio com o veneno é a dose. Mais velho que a terra – na visão de mundo de paranoicos olavistas – referência ao ideólogo bolsonarista Olavo de Carvalho, intransigente defensor de que a terra não é redonda, mas, sim, plana. Cada um acredite no que quiser e prove do fel ou do mel. Mão de escolha.

Longe de querer ideologizar essa ou aquela postura médica, devo manifestar àqueles que certamente pouco ou nada se interessam por minha conduta. Sim, aviei para mim, de fato – não de direito – certas regras de conduta para o combate ao mal do Coronavírus, a Covid-19. Lembrando Jânio Quadros: “fi-lo porque qui-lo”.

Para tanto, li, reli, escutei, auscultei, averiguei, sondei etc. Fui ao centro da terra e voltei. E aos mais distantes pontos do planeta, para avaliar o que pode ser útil para o enfrentamento ou, pelo menos, mitigar a distância do mal da Covid-19 enquanto os imunizantes não chegam. Direito meu, sem afastar-me dos valores naturais e constitucionais da República.

Não vou me desdobrar em explicações do que encontrei, do que fiz e faço uso. Como de resto o que evito. Fator sorte, não sei. Orações, muitas! Posso afiançar: até o momento – daqui a pouco não dou notícia – não contraí a peste que tem tirado, não apenas o sossego, mas preciosas vidas de pessoas de diferentes faixas etárias. Na observância da confluência de resultados inóspitos, a taxa de mortalidade pelo sistema imunológico mais fraco e o fator comorbidades.

Na contagem fria dos números, a maioria das vítimas por Covid-19 tem mais de 60 anos, ficando a taxa mais alta para os acima dos 80. Também de se ter em conta a incidência de outras doenças, ao que chamam comorbidades.
Entretanto, segundo estudos feitos por especialistas – e a ciência dos fatos indica – pessoas mais jovens, inclusive crianças, estão entre os mortos, número inferior, é claro.

Em face disso, não há como alertar para o que não se deve fazer. Caso o prezado leitor bote fé em medicamentos não comprovados pela ciência para combater o mal da doença, fique à vontade. Tome-os com fé, sem frescura. Quanto aos que fazem uso de hidroxicloroquina e a cloroquina, entre outras panaceias, defendidas por renomados médicos, o que se pode dizer é o que a ciência mundial exorta: não funciona e pode fazer mal.

Pronto, acabou. Xinguem, sem constrangimento. Lembro apenas aos destrambelhados: o presidente Bolsonaro, não elogio a loucura, não vai bem nos comandos setoriais das pesquisas. Segundo o Datafolha: 54% reprovam o desempenho do seu governo. Querem o que agora? Que se entoem loas e boas ao negacionismo genocida?

Lembrando o que a própria palavra relata. Negacionista é aquele que nega a realidade como forma de escapar do que é evidente. Se está provado que não dá, é porque não dá! Por que insistir? E se dermos trela à tese literária machadiana e partirmos para a dosimetria? Então se opte, no mesmo segmento, por xixi de gato, chá de limão, chá de alho, chá de erva doce, enfim, chá de qualquer coisa. Sugestão da hora: suco de pêssego para uma colorida louca paixão.

A verdade é que o mundo da ciência deixa claro que não há remédios específicos para a Covid-19. Cuidados, sim. Lockdown bate à porta para o repúdio de muitos, o que não deixa de ser uma saída de emergência. Protocolo de isolamento não é a cura. Como também não é a pedra-de-toque, menos ainda a pedra angular.

Como não é, de forma alguma, a pedra filosofal para transmutar o vexame de governantes estúpidos que não fizeram o certo no momento adequado. E agora se debatem entre a vergonha e o símbolo capital da consciência, na representação tétrica e mórbida dos quase 300 mil mortos por Covid em todo o Brasil. Caso insistam em me perguntar o que utilizei e utilizo para chegar até aqui sem o mal da Covid-19, não vou divulgar.

Simples e apreciável motivo. Não sou médico para aviar receita a quem quer que seja. E não estou imune à probabilidade de infecção. Curiosidade de momento, disseram a um amigo com problemas cardiovasculares o não inusitado. O pobre coitado passara por procedimento cirúrgico e estava preocupado com a saúde. Em tom profético, cochicharam-lhe ao ouvido que dois cálices de vinho tinto são ótimos para desobstruir as artérias. Conclusão maluca a que chegou o paciente: em sendo dois cálices bom, duas garrafas de vinho muito melhor.

Com efeito, uma ou duas taças de vinho por dia fazem bem ao coração. Propriedades ‘bafometrais’ podem não ser. O vinho contém flavonoides. E flavonoide não só cheira a nome de remédio como é remédio. Substância antioxidante. Protege as células contra o envelhecimento, defende o coração de doenças terríveis. E mais: equilibra a pressão arterial. Sem falar que reduz a formação de cálculos renais. São estudos comprovados.

E se o prezado ousado partir para o pressuposto de que, no inverso da paráfrase “um elefante incomoda muita gente; dois elefantes incomodam, incomodam muito mais; três elefantes incomodam muita gente; quatro elefantes incomodam, incomodam, incomodam, incomodam muito mais … Aí, não vai virar! Vai-se pirar! Aquele que optar por duas garrafas de vinho por dia, não demora, apita na curva, com ou sem galinhas pintadinhas. Pelo excesso de elefantes a incomodar nos descaminhos, no provável, vai-se dessa para outra, em decorrência do alcoolismo, pelo uso indevido do álcool. O excesso de álcool, portanto, descartado.

Caso queira encontrar o Senhor Flavonoide, uma pesquisa. Vá ao mercado. Estão nas frutas, nos avermelhados em geral. Nos vegetais e nos ingredientes de grãos: amêndoas, nozes, soja, linhaça. Essas coisas. Noutra vertente, quer mesmo é encher a cara? Tudo bem. Sirva-se de sucos concentrados de uva.

Especialmente na forma de integrais. Não haverá problema com a polícia, bafômetro etc., tampouco com políticas públicas e sanitárias aplicáveis à espécie e ao organismo humano. E estamos conversados. Mas que coisa, hein? Quem não aderia à máscara, posava de super-herói, vir a ser desmascarado em público, pelo próprio público, pura e simplesmente, através de pesquisas? Será o começo de um triste fim?

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna