Opinião

Leis da natureza

20 de abril de 2020

Até então me vangloriava de que o Brasil é um país abençoado por Deus e bonito por natureza. Poeticamente sublime e musicalmente na justa forma. Com razão Jorge Bem em seu “País Tropical”. E motivo para tal bazófia tinha de sobra. Em nosso país não existem ciclones, tufões, dilúvios, terremotos e tempestades em larga escala. Mas…

Numa sexta-feira, bem podia ser uma de número treze no calendário de valor, estive em meio ao epicentro de um vendaval em Passos. Passei por tormentosos momentos. O temporal não demorou muito. Não pude precisar quanto. Poucos minutos? Meia hora? Não sei. Foi tudo muito rápido e não menos avassalador. O suficiente para que parasse o carro e, atordoado, buscasse abrigo longe das casas pouco aprumadas e árvores as quais, armadas até as raízes dos dentes, tentavam manter-se em pé. No entanto, percebi que perdiam para a força descomunal da natureza.

Refugiei-me numa larga avenida que me parecia viável. O medo tomou conta. Mais árvores, ou fragmentos delas, arrastadas pela fúria do vento. Tampas e caixas d’água se deslizando para o alto. Junto, antenas de televisão, ou o que delas restou. E também vi. Motos caídas ao chão. Uma garota debaixo de uma. Pessoas desorientadas em volta. Pouco se aguentando em pé. Nada puderam fazer. Pedaços de casas rodopiando no ar. Placas e apelos visuais tidos como ‘outdoors’ de candidatos, desta feita não impactavam o público-alvo. Lembrando o escritor checo-francês, Milan Kundera, em a “Insustentável Leveza do Ser”, múltiplos fragmentos faziam malabarismos e proezas. O mesmo se dando com estruturas de pouca sustentação.

O resumo firmou-se na tragédia da balbúrdia e desordem. Sem energia, os semáforos não funcionavam. Motoristas em peripécias ao volante. Solidariedade entre os pares. Coisa invulgar no dia a dia.

Pessoas perturbadas faziam a mesma sincronia em desatino. Umas de carro, outras a pé. Em polvorosa, estavam em plena comunhão no desespero e aflição. Sem meios de defesa, incapazes de esboçar reação a um fenômeno que ultrapassava aquilo a que comumente chamamos de pé-de-vento. Era bem mais que isso. Sabe-se lá o nome a que se dá a tal fenômeno.

Lembrei-me de um filme-catástrofe chamado Twister (1996). Uma aventura cinematográfica revelando o lado negro da natureza. Fez sucesso à época. Tudo voava. Carros, bois, boiadas. Por aqui rostos de candidatos voando ao léu. Dinheiro jogado fora.

Mas foi na terra abençoada do Senhor dos Passos, não em Los Angeles, na Califórnia, sob a batuta de um Steven Spielberg. Rajadas de vento a 127 quilômetros por hora. Aferição feita no bairro Bela Vista por um especialista, na oportunidade, portava um anemômetro, instrumento medidor da velocidade dos ventos.

Passou por Ribeirão Preto e Franca na casa dos 87 e chegou a Passos acima dos cem. O fato ocorreu por volta das 17 horas. O céu cedeu lugar ao breu. Às trevas. Uma escuridão estranha, medonha, ameaçadora. Ensandecida, se enfurecia na proporção que a previsão do insondável se apresentava no mais sombrio. Não obstante a dificuldade de se avistar algo ou alguma coisa, ante a fúria de uma inclemente tempestade, o terror.

De imediato atirei-me em oração. “Porque com Ele guiando seu barco a tempestade pode até vir, mas com certeza chegarei ao porto desejado”. Entretanto, nem todos tiveram a mesma sorte. Casas destelhadas, carros avariados, um ônibus à minha frente atingido por uma árvore rompida, o vidro do para-brisa estilhaçado, arrancado e atirado para longe.

Inviável descrever a parte final do acontecimento. Entretanto, o prejuízo foi incalculável, tendo como débito e prejuízo o tormento irreparável de vidas de seres humanos e outras criaturas constitutivas do seu universo.

Antes e depois do infausto, ao tempo que a humanidade transita na órbita de grandes conquistas, vê-se com apreensão a natureza dando respostas não benfazejas à história da civilização.

Por hipótese, tomemos o planeta como uma área rural de grandes proporções. Para o bem maior, dela devemos cuidar para que animais, vegetações e o ecossistema em si não sofram devastações, porquanto a biodiversidade tem suas leis próprias e que nos tornam responsáveis para o seu cuidado e não dizimar o que nos resta de matas, criadouros de rios, peixes etc.

Pode parecer maluca a ideia, mas o planeta tem limites e desafios. O cenário catastrófico que hoje enfeia e entristece pode ter como origem a própria mão humana. Afinal, a maior de todas as incoerências até hoje vista e ventilada entre os homens de pouca e nenhuma vontade é a de que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Respeitosamente, deixemos Deus fora disso e procedamos ao devido reparo. Por todo e para todo o sempre, Ele escreve certo por linhas definitivamente mais certas ainda!
Lógica do bem viver, para tudo nesta vida existe a dualidade do ônus e o bônus. É inconcebível discorrer sobre certas agressões da natureza. Pergunta de um leigo que luta pela propagação da tese de que é possível ser feliz com o pouco e o natural, para o bem de todos.

Pergunta que se faz: será que as mudanças climáticas têm ou não a ver com as emissões de gases, as quais sabidamente são poluidoras do meio ambiente?

Reflexão sobre o impacto que abalou a estrutura de uma parte infinitesimal do planeta, mais precisamente no município brasileiro de Passos, localizado no interior de Minas Gerais, da Mesorregião do Sul e Sudoeste de Minas.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, escreve aos domingos nesta coluna ([email protected]).