Opinião

Legado

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

7 de julho de 2021

Um dia desses, caminhando pela avenida Sabiá, talvez a mais arborizada da cidade, cruzei com um amigo que também por lá se exercitava e, passando a caminhar juntos, observei a quantidade e diversidade de árvores plantadas ao longo daquela via pública, bem como o estado em que se encontravam, todas muito bem cuidadas, viçosas, agradáveis de se ver, coisa rara de se encontrar aqui em Passos, com tantos logradouros públicos degradados. Após fazer a observação, o amigo com o qual caminhava (o Engenheiro Agrônomo Paulo Junqueira) se manifestou e surpreendeu-me, dizendo: É, tem dado um pouco de trabalho, mas é um prazer, uma alegria, dedicar um pouco do meu tempo a ajudar a cuidar das árvores aqui plantadas, bem como efetuando novos plantios e o replantio das que foram danificadas. Assim, ali estava eu, sem saber, diante do ‘jardineiro’ da avenida Sabiá, que, voluntaria e espontaneamente, decidiu dedicar parte seu tempo e recursos para embelezar aquela via. Um ‘hobby’ que beneficia toda a cidade. E nós, os caminhantes da avenida Sabiá e demais cidadãos passenses, agradecemos!

De igual forma, o ocorrido com a Praça Benedito da Silva Maia (Praça do Hospital São José/Unimed), como noticiou o Portal G1: “Quem sabe a gente consegue mudar um hábito e influenciar pessoas para evitar que os jardins públicos sejam vandalizados. Quem sabe mais pessoas abracem esta ideia. Meu sonho é ver isto daqui com plantas comestíveis para ajudar pessoas que não tenham acesso a este tipo de alimento”, afirmou Lília Jane Marques, diretora clínica do hospital e homeopata. O local foi restaurado e recebeu uma nova pintura, lixeiras, rampas de acessibilidade, bancos e mesa de xadrez. A praça também ganhou um jardim medicinal, com diversos tipos de plantas que servem para tempero ou para fazer chás. Lá é possível encontrar erva doce, capim cidreira, hortelã e orégano. Os ramos podem ser levados por quem desejar. Segundo a idealizadora do projeto, o objetivo é criar a cultura de cultivar plantas medicinais e comestíveis para transformar espaços públicos. E a cidade agradece!

Tais fatos, longe de serem concorrentes, cooperam com o poder público municipal, sem, no entanto, eximi-lo de sua responsabilidade legal e moral de legar aos munícipes uma cidade melhor. Há uma corrente moderna de pensamento que defende a tese de que a história da humanidade é construída e movimentada pelo conjunto de pequenos acontecimentos e por personagens pouco conhecidos, independentemente dos grandes vultos da história, os quais seriam a exceção a confirmar a regra. Baseados nisso, podemos afirmar que somos nós, pessoas comuns da sociedade, os grandes construtores ‘invisíveis’ da nossa história presente e futura, tais quais formiguinhas trabalhadoras, cada uma carregando o seu quinhão para abastecer e fazer prosperar o formigueiro. Até a natureza nos ensina que somos, todos, seres solidários, sujeitos da solidariedade, sem a qual não sobrevivemos e progredimos, nem individualmente nem como sociedade. E que cada um de nós tem a oportunidade de legar, na nossa curta existência, algo de bom para a construção de um mundo melhor.

Nesses ‘dias estranhos’ em que estamos vivendo, toda a humanidade… de uma pandemia interminável que já avança pelo segundo ano consecutivo, de antagonismos e radicalismos cada vez mais exacerbados, levando muitos ao desespero e outros ao desprezo e desamor pela vida, que possamos nos alimentar das coisas boas que um dia foram plantadas em nossas vidas e, mais ainda, que sejamos, também, agentes da esperança em um mundo e em momento tão carentes dela. Pode ser a nossa salvação. Afinal, como queremos ser lembrados?
Saúde e Paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna