Opinião

Legado de esperança

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

3 de março de 2021

Com a arma apontada para sua cabeça, aguardando o estampido final que lhe tiraria a vida, já resignado de seu destino, ouve, então, o estrondo do tiro fatal: bum! Segue-se breve silêncio… e tomba, ao seu lado, o seu algoz. O que acontecera? Ainda aturdido, sem entender muito bem o que se passava, vê surgir das sombras a figura de um jovem sorridente, com a arma em mãos, ainda fumegando, que lhe diz, alegremente: “Gostei das suas histórias!”.

Sim, fora salvo da morte iminente por aquele rapaz que há pouco ouvira o seu relato de uma história de superação em meio a uma tragédia, em que um pequeno grupo de valentes mineiros se salvara em um desmoronamento da mina onde trabalhavam. Esta é uma das cenas impactantes do recente faroeste ‘Relatos do Mundo’, estrelado por Tom Hanks.

Hanks, vivendo o papel de um contador de histórias, faz a leitura de jornais da época para uma população em sua quase totalidade analfabeta, viajando por cidadezinhas do interior dos Estados Unidos, no pós guerra civil. Em uma delas, contrariando o líder local, que explorava os moradores e os mantinha debaixo de abjeta opressão, ousa desafiar o ‘status quo’, com risco de vida, contando a história dos mineiros que se salvaram de uma tragédia, lutando e vencendo situação adversa.

Com isso, em meio àquela multidão oprimida, desperta a esperança de libertação e sonhos de dias melhores no coração de um jovem que lá estava, também, a ouvi-lo. E que, momentos mais tarde, movido por profunda simpatia (“Gostei das suas histórias!”) o salvaria da morte por vingança que seria promovida pelo líder daquela cidadezinha.


Destino comum

É verdade que nem sempre encontraremos um “jovem simpatizante” a nos salvar das intempéries da vida – ou mesmo da morte -, como ocorrido na história acima. Mas, uma coisa é certa: a morte nos iguala a todos. Diante disso, o que nos trouxe até aqui, com vida? Certamente foi a esperança de dias melhores, plantada em nossos corações em algum momento de nossas jornadas, seja pelos nossos pais, por um amigo… seja por alguém que cruzou o nosso caminho e nos ajudou (“salvou”) em um momento difícil da caminhada, até mesmo sem percebermos.

Nesses ‘dias estranhos’ em que estamos vivendo, toda a humanidade… de uma pandemia interminável que já adentra o segundo ano consecutivo, levando muitos ao desespero, que possamos nos alimentar das coisas boas que um dia foram plantadas em nossas vidas e, mais ainda, que sejamos, também, agentes da esperança em um mundo e em momento tão carente dela. Pode ser a nossa salvação. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna