Opinião

“Lavoura arcaica”, um clássico de Raduan Nassar

1 de abril de 2021

No seio do pandemônio de versões advindas do inimigo comum, o coronavírus, que atinge a todos, sejam de que correntes ideológicas o forem, divulgar a literatura me tem sido um alívio. Aliás, as pessoas precisam cuidar não só da sobrevivência, mas também da saúde mental, justo por estarmos num momento de tantas dores, tantos confrontos e uma algaravia de vozes em defesa de suas ideias.

Claro que as artes, inclusive a literária, possuem papel relevante para estimular o prazer, a leitura, e, em consequência, a cultura. Ao passo em que tentamos preservar a vida, fundamental nutri-la do que pode nos engrandecer o espírito. Não é fácil emendar um novo livro nos intervalos de 15 dias em que publico meus textos. Em razão disso, enquanto enveredo pelas 800 páginas de “A montanha mágica”, um clássico do alemão Thomas Mann, vou tentando acrescentar, dentro do possível, outras abordagens.

Eis aqui, então, um artigo cuja publicação se deu, nesta página, no já longínquo 20 de fevereiro de 2003. A resenha foi sobre este clássico extraordinário da literatura brasileira, “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar. Rememoro-o, pois, com as poucas alterações que ora realizo: Em virtude do reconhecimento que a crítica literária devota ao escritor paulista Raduan Nassar, fui bater-lhe às portas em “Lavoura arcaica”.

Nascido na década de 30, na pequena Pindorama, Raduan chegou a estudar filosofia e direito anos depois em São Paulo, mas não concluiu os cursos. Sempre inquieto, já começava a escrever, e, assim, nos legou esta obra-prima, ao lado de outras de menor calibre, como a novela “Um copo de cólera” e alguns contos. Nem o sucesso o fez desistir de abandonar a literatura para viver como produtor rural ainda nos anos 70, ato típico de seu temperamento peculiar.

Bom trazer à lembrança algumas de suas opiniões à revista “Veja”. No bojo das declarações, despontam críticas ao meio intelectual e à tal modernidade. Ao homem contemporâneo, ironiza por não ir ao banheiro sem o celular. Ao ensino, atira farpas por não ensinar o aluno a pensar e a escrever. À linguagem dos internautas, resta o desapontamento por causa da baixíssima qualidade.

Sobre um possível retorno à literatura, alega não lhe ser mais possível recuperar aquele impulso vital que leva alguém a mergulhar de cabeça em uma atividade. “Não se faz literatura para valer com paixão requentada, e já disseram que a voz sem entusiasmo jamais será ouvida.” Eis a senha para compreendê-lo. De fato, creio que mergulhou tão profundamente na literatura quando a exerceu, que não soube praticá-la sem ardente dedicação. Quem se dispuser a percorrer as páginas de “Lavoura arcaica”, há de notar que a obra faz jus a suas opiniões.

Embora o enredo nada tenha de tão incomum, já que reside no retorno de um filho à casa paterna após as frustrações de um amor proibido, sua força está no modo de narrar. Momentos ocorrem em que Raduan parece conduzido por enorme grau de inspiração ao usar toda a força de sua criação em termos de palavras e frases para exaurir determinados pensamentos das personagens principais. Recheado, portanto, de metáforas e outras figuras de linguagem, que relacionam o árduo trabalho na terra e as demais circunstâncias da vida rural com o mais profundo sentimento humano, este romance acaba por se constituir, antes de mais nada, em extremo exercício linguístico, somente possível àqueles que veneram a palavra, a literatura.

Percebe-se, em seu desenvolvimento, que nenhuma frase se torna excessiva ou desnecessária. Vale dizer que todas as suas sílabas servem ao intuito de levar o leitor a uma avalanche de sensações sempre envoltas no eterno conflito entre liberdade e tradição. A liberdade do filho, em suas reflexões tormentosas; o rigor do pai autoritário, que não admitiria nada que contrariasse os seus valores estabelecidos e imutáveis.

De tal forma, ganha relevo a trajetória de André, o referido filho, que, em razão de sua paixão proibida, volta à casa de sua família para expor o modo de vida que ali ocorria, um estilo patriarcal, em que todos os membros deveriam se sucumbir ao absoluto poder do pai. Despindo-nos de considerações morais a respeito dos choques que poderiam causar a paixão de André, estamos sob um romance em que o conteúdo acaba se subordinando à forma, o que nos faz enaltecer as construções linguísticas usadas pelo autor para dar relevo aos dramas pessoais em curso. Somente um grande mestre da escrita se torna capaz de feitos dessa natureza.

Há de se lamentar a deserção de Raduan Nassar da literatura, mas “Lavoura arcaica” adquire o nível dos clássicos, pois tão bem tão bem arquitetado que suplanta limites de tempo e espaço para nos oferecer uma imensa carga emotiva nos conflitos de seu enredo. P.S. Por falar em literatura, registro os parabéns ao escritor e amigo Marco Túlio Costa pelas comemorações dos 40 anos de seu primeiro livro, “O mágico desinventor”, e por sua já reconhecida carreira literária. Túlio, gente nossa, nem que seja por adoção. Orgulho para Passos.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna