Opinião

Jogar a toalha, jamais

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

31 de Maio de 2021

O ano era 1967. Eu tinha 13 anos. O cantor e compositor italiano Luigi Tenco resolveu pôr fim à sua existência com um tiro na testa.

Há uma teórica explicação para o doloroso acontecimento. A canção com a qual disputara o famoso Festival de Sanremo, na Itália, não ficou em primeiro lugar. Coisas da vida. Não gostou, não aprovou o resultado, como forma de protesto apelou para o pior.

Não é preciso ir longe. Ante as adversidades, não se deve jogar a toalha. No mundo do boxe é desistir da luta.
Vamos por partes. Boa pinta, situação financeira definida, cantor de voz privilegiada (rouquenha e grave), Luigi se valeu da canção “Ciao Amore Ciao”, linda, por sinal, para concorrer na famosa competição musical, coqueluche da época dourada.

Nada a objetar, caso não fosse um detalhe. Em nenhuma hipótese, o autoextermínio se justifica. A vida não nos pertence. Alguém nos colocou aqui. Não houve consulta prévia, contrato expresso, seja por prazo determinado ou indeterminado. Menos ainda mediante contrato de experiência. Como no modelo: – “não gostei, dono sou do meu nariz, faço agora por rescindir o contrato por decisão pessoal. Ou seja, ato puramente unilateral”.

É muito importante pensar a vida e na vida. A vida como nos é proposta. A vida que vivemos e como vivemos.
A despeito dos percalços, das bolas divididas, carrinhos, caneladas e tudo o mais, vale a pena viver a vida do jeito que ela é. Cada um tire dela o máximo proveito, porquanto o manancial é rico, pródigo e farturento.

A vida é bela. No dizer de minha saudosa irmã Conceição (Sãozinha) nós que a estragamos. Em tosca peculiaridade, dizia: “A vida é bela. Nós que estragu’ela!”A gente ria. E seguíamos – como deve ser – os dias que tínhamos pela frente.

Não se sabe ao certo o que levou Luigi Tenco ao desvario de encerrar com chave de fundo cinzento a nobre existência. Aos 29 anos! Sei que vale muito continuar vivendo, a despeito de todos os dissabores.

Não existe fórmula mágica para dissuadir uma pessoa que se volta para o cometimento do suicídio. Efetivamente, não. Entretanto, buscar o diálogo é uma opção. Mecanismo efetivo para ajudar. Não vou deixar de externar meu ponto de vista muito simples. Se a onda não está favorável por aqui, quem garante que do outro lado será e estará melhor? Mais ou menos por aí.

Sem essa de pregação chata de caráter religioso. Tenho minha crença e a mim basta. Não sou pregador. Melhor é falar abertamente que não vale a pena. E pronto.

Ficar por aqui, quando há possibilidade de continuar a labuta vivencial é infinitamente melhor. Falam tanto no insuportável cheiro de enxofre. No choro e ranger de dentes. No plano determinado do eterno. Na história de milhões de anos, e outros bilhões. Credo! Horrível pensar assim e agir de forma insana. Nem pensar. Se alguém passa pelo tormento e orla da maluquice desenfreada e infernal, melhor é a readequação. Caia na real. Tanta coisa boa por aqui. Ainda que bem mineiro: “Tá ruim, mas tá bom”.

Muitos enfrentam situações desesperadoras, mas não entregam os pontos. Outros há que não dispõem de um fio no campo da possibilidade existencial. Mas, a bem da verdade, lutam com todas as forças no sentido da preservação da vida.

Por motivo altamente justificável, gostaria de dedicar o texto inteiramente a um amante incondicional da vida: José Maria Mota – o Pixinguinha. Saudade do meu trompetista predileto! Gente da melhor qualidade. Um gigante não só na arte musical, mas, sobretudo, na habilidade de conduzir a existência humana, metodologia calcada na resiliência e força moral.

Querem saber? Viver é uma exaltação à supremacia e nobreza da própria vida, esta ofertada com grandeza superior na magnificência. No dizer de Gonzaguinha, em sua bela canção “O Que É, o Que É?”, melhor não há: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz!”

Quando, então, miremo-nos no exemplo conceitual de que não estamos aqui por acaso. Há um sério e determinado propósito para estarmos aqui. E para os que não acreditam num plano especial de vida, bom que pense e reflita: tudo que nos rodeia e nos circunda tem um prazo de validade muito curto e passageiro. Quando se pensa que é, já foi! E então? Acha que não dá? Dá!

O aparecimento de pensamentos sombrios, como o de pôr termo à própria vida é uma luzinha de que precisamos buscar ajuda. Algo pode não estar indo bem. Depressão? Pode ser. Ajuda médica. Experiência própria. Desilusão amorosa? Pé torto, chinelo velho!

Há pouco mais de duas décadas, passei por maus bocados. Não cheguei a tanto, como o tentar ir para o outro lado. Longe disso. Gosto muito daqui. Fiz-me forte. Busquei ajuda.

Meu protetor Arlindo Gomes Ribeiro foi meu guia. Mas, não só! Os amantíssimos bispos Nelma e Antônio, da Comunidade Sara Nossa Terra foram meu porto seguro. Toda aquela gente maravilhosa da Sara.

Entreguei-me a pensamentos bons, vali-me (e valho-me) de boas prescrições médicas, o trabalho é fundamental – e eu – reles personagem em oceânico espaço infinitesimal, como um barquinho sereno e seguro – metralhadora Lu2 foi e é fundamental – continuo seguindo adiante. Até quando…
E eu sei de alguma coisa?

Melhor que questionar o objetivo da vida é vivê-la na plenitude da sorte grande. A vida é uma sorte grande. Viver da melhor forma possível. Nada de acarretar prejuízo a quem quer que seja. Mentir é feio. E, sobretudo, observar um só mandamento, apenas um. Simples e forte. A seguir – a ver.

Alguém muito especial por aqui passou e deixou um recado resolutivo e de caráter irrevogável: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e toda a tua mente”.

Isso é para quem crê. Eu creio! Em síntese, é isso. Jesus – o Salvador – resumiu num só o maior e o primeiro dos mandamentos.

Fiquemos nisso!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna. ([email protected])