Opinião

Isenção profissional

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

14 de junho de 2021

Não sou médico, tampouco da área, nem me agrada tratar do assunto. Profissional na área do trabalho, deparo-me com determinadas situações na medicina, em que médicos fazem por atrapalhar a vida de segmentos da classe trabalhadora, tanto na área trabalhista como na previdenciária.

Pelo menos é assim que vejo no dia a dia. Não sei se por viés ideológico, tendência pura e simples, má vontade no aprofundamento das particularidades de cada caso. Longe falar-se na falta de conhecimento específico. Distante, por igual, polemizar com a maioria, porquanto profícua e satisfatória. Fato é que alguns médicos acabam por incorrer-se em erros lamentáveis, acarretando prejuízo e consequências desagradáveis para gente que sofre e não entra na fila para pedir, senão a intercessão divina.

Causa-me apreensão certos relatórios médicos, muitos dos quais dão conta de que o paciente, depois de trabalhar por longos anos como marroeiro numa mineradora (marroeiro é destroçador de pedras), após determinado tempo vem apresentar terrível quadro clínico pelo esforço repetitivo, não raro com sérios problemas nos braços e ombros, em razão de suas atividades laborais.

Para se ter ideia, um marroeiro chega a trabalhar o dia todo com marretas de 6 a 10 kg, quebrando pedras e enchendo caçambas – no comum das vezes – alternando-se com uma menor, de menor poder ofensivo, não importa. Estamos tratando de exercício de profissão enquadrada como atividade especial. Até mesmo para efeito de aposentadoria precoce. “Não é mole não, meu irmão!”, diria aquele pastor.
Pois bem. Na minha lida diária me pego com problemas dessa natureza, muitos casos traumatizantes. Trabalhadores perdem a mobilidade do braço, quando não dos dois, no segmento os ombros, pela ruptura completa do tendão supraespinhal, tendinopatia da cabeça longa do bíceps, entre outras impressões diagnósticas, tecnicamente não vêm ao caso.

Como trabalham por produção, matam-se de tanto trabalhar para, ao final das contas e do mês, abiscoitarem, digamos, uns três mil reais. Essa a média que um marroeiro chega a receber ao cabo de duas quinzenas na região Centro-Oeste de Minas.

Lembro-me de um caso em que o paciente (assim os trato) me procurou para dizer que fora dispensado pela empresa. Ouvi-lhe o relato. Não tão diferente de muitos. Mudam-se os personagens, as histórias se repetem. Dois pinos no ombro, sem mobilidade para o trabalho braçal. Enfim, não mais conseguia manusear as marretas para a satisfação de uma vida e de toda uma estrutura social e familiar.

Comovente o caso. Afastado pela Previdência, acabara de receber a notificação de apto para o trabalho. No interregno, enquanto se cuidando, recebia uma merreca de auxílio-doença. Fator previdenciário. Outra anomalia.

Quando pergunto, e então? Esse trabalhador, por acaso, vai se banquetear num escritório de advocacia para almoçar e jantar às oito da noite? Cansaço apenas mental? Não. Caso não disponha de sólida formação moral e espiritual, os votos é que não se encerre num mísero boteco para malditas talagadas de cachaça. Essa a triste realidade.

No comum é assim: sonho da família organizada, o carrinho pouco rodado, andando com o cheiro da gasolina. O néctar pela hora da morte. O desejo dos filhos encaminhados. O tradicional puxadinho. Ah, o puxadinho! Enfim, o arrebentar-se no trabalho, literalmente, pela média das produções, ao cabo de santificadas folhinhas mensais.

Quando, em nível de Relatório Médico, tomo conhecimento da avaliação clínica: – “Paciente com quadro de doença crônica, ‘degenerativa’, sem prognóstico de cura definitiva”. Então faço por perguntar aos doutos senhores médicos: – ‘Doença degenerativa’ para quem moureja oito horas por dia com uma marreta e em contato com pedras deslocadas manualmente de um lugar a outro, sem o devido cuidado ergonômico, chegando a pesar 30 kg cada, pela força bruta? Será que quem assim avalia comeu… Isso mesmo! Não é possível!
Desculpe-me entrar em seara alheia, mas uma doença degenerativa é aquela que, gradualmente, vai comprometendo funções vitais.

Fixemos em algumas delas, bem conhecidas: Doença de Parkinson, Alzheimer, Diabetes, Esclerose Múltipla e Osteoporose. Inscreva-se, também, a Distrofia Muscular. Numa rudimentar explicação, a doença degenerativa é a doença que vai pouco a pouco comprometendo funções vitais.

O que mais entristece na área operacional do direito é ver um Juiz Federal do Trabalho (ou de Direito) embarcar numa rapsódia mal interpretada, já que o juiz não precisa ficar adstrito aos laudos técnicos judiciais. Na dúvida, peça reforço acadêmico. Há sempre os que conhecem com proficiência. Competência. Mas parem de cometer injustiça! São inúmeros os casos. Muitos os trabalhadores na terrível condição de zona do limbo, ou seja, “o período em que o empregador, o empregado e o INSS discordam da aptidão do trabalhador para retorno ao trabalho. Impõe-se, assim, o imediato retorno do trabalhador ao emprego”. Mas como? Se ele nem sequer dispõe de condições de gerir e cuidar de sua própria higiene pessoal, tamanha a gravidade clínica?

Peço vênia aos ilustres médicos, bem como aos não menos ilustres juízes, mas a palavra “degenerativa” vem de degenerar.

Etimologicamente, quer dizer “perder as qualidades essenciais”. Na medicina, corresponde a característica de células e tecidos que vão perdendo a sua função. Simples assim. Rasgar tendões de ombros e braços, em atividades como quebrar pedras com marretas e ao longo de oito horas diárias, não tem nada de degenerativo.

No entanto, a autarquia federal – o INSS – com a ‘ajuda’ de manjadas figuras da medicina – recebem para tanto? – resolve mandar ao trabalho alguém que carrega na tração física humana, mais precisamente nos braços e ombros, após procedimentos cirúrgicos, nem sempre com bons resultados, a introdução de parafusos e pinos é praxe, com a determinação de que volte a destroçar pedras. Com todo o respeito, é terrificante! Faz lembrar o que mesmo?!

Podia muito bem o profissional médico, pela anamnese (entrevista com os pacientes) saber o que um marroeiro faz, quais os instrumentos de trabalho utiliza, o que é trabalhar por produção etc., sem contar a vontade do trabalhador de envidar esforços para melhorar sua condição vida e dos seus. Que conheça um pouco da área de atuação desses valentes, extensivo a todas as categorias profissionais. Do bancário ao gari; do jogador de futebol ao repórter jornalístico. A todos, sem exceção.

Ah, mas eles sabem. Estão é de brincadeira. Querem mesmo é atrapalhar o sonho de quem anseia passear com a família nos fins de semana para ir ao rio pescar, já não tão cheio de peixes assim; umas piabinhas, talvez. E não só: insistem fazer, no reino da crueldade e insensatez, imprimir em vidas pequenas, o tom lusco-fusco da crença de que o tão sonhado puxadinho só para quando Deus quiser!
Eita!

PS: Com carinho, ofereço o texto a quem não comunga com a pressa no conhecimento do outro. No que muito ajudam. A Dr. Fábio S. Campos e Dr. Leandro Urquiza Marques Alves da Silva, médicos da Santa Casa de Misericórdia de Passos, que honram e fazem da profissão nobilíssimo ministério.