Opinião

Infalibilidade da Academia

7 de Maio de 2020

“No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso.” – Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Antes mesmo desenvolver o assunto de hoje, quero aqui exaltar a importância que a universidade teve em minha formação profissional e como pessoa Humana. Foi nos bancos da PUC-MG, que vivi os melhores e mais empolgantes anos de minha vida, quando experimentei pensamentos de inconformismo com as desigualdades sociais e onde acalentei os melhores sonhos e amizades que imaginava que seriam para sempre. Choques com a realidade na fase pós-universitária não foram poucos, mas a formação superior me permitiu construir-me como profissional e como ser humano, não seguindo dogmas acadêmicos, mas utilizando o aprendizado como referência para, fora do ambiente de quadro negro, buscar soluções para os problemas que é o grande mister da engenharia.

Mas infelizmente, pela característica cultural e mais que isso, pela indução provocada pela força da mídia, o que se estabelece e o que é publicado pelas universidades, torna-se um verdadeiro axioma para as pessoas, considerando, dessa forma, os ditames acadêmicos como verdade absoluta e inquestionável, como se a academia tivesse o poder reconhecido aos papas, quando se manifesta “ex cathedra”, gozando assim de infalibilidade.

Talvez por este endeusamento e a falsa sensação de que a formatura em terceiro grau garantirá êxito e bons salários na vida profissional, no Brasil se estabeleceu um verdadeiro frenesi por “formar os filhos em faculdade”, imaginando que assim o futuro deles estaria garantido.

Grande ilusão! Profissionais recém formados, em sua grande maioria, amargam dificuldades de encontrar trabalho em que possam exercer e desenvolver o conhecimento recebido e desviam para outras atividades ou padecem da dor do desemprego, reconhecendo que todo o sacrifício e esforço pode ter sido em vão.

Hoje, mais que nunca, é preciso ter consciência da importância do curso superior, mas sem jamais abandonar a também importante formação intermediária, fundamental para o sucesso do conjunto de atividades profissionais. Se fosse apenas pela vontade dos pais, formar-se-iam apenas universitários e minha profissão de engenheiro eletricista, por exemplo, jamais lograria êxito sem bons eletrotécnicos e assim por diante.

Apenas a título de exemplo, em 2008 participei de uma festa em comemoração aos 25 anos de formatura e constatei que dos colegas presentes, apenas 5 exerciam a profissão de engenheiro eletricista e, exceto os filhos de proprietários de construtoras, percebiam salários menores do que colegas que supriam a demanda das atividades intermediárias.

Chegou o momento de enxergarmos a sociedade em sua completude valorizando todos os segmentos e principalmente sem conferir a ninguém o status de semi deuses como por vezes os conferimos àqueles que apresentam estudos acadêmicos: eles também falham e muitas vezes sofrem influências até mesmo políticas e ideológicas de diversas naturezas, distorcendo a precisão e veracidade das conclusões apresentadas.

E, finalizando, este parvo e pequenino articulista comete aqui a ousadia de contestar de forma veemente um estudo apresentado por uma das mais renomadas instituições de ensino do mundo, o Imperial College da Inglaterra que segundo matéria do jornal O Tempo, publicou que “A pior previsão é para nove países em que a epidemia ainda se encontra “em provável crescimento”, o que inclui Brasil, Canadá, Índia, México e Rússia. O Brasil tem ainda o maior número de reprodução de casos – cada doente transmite para aproximadamente três outros, forte indício de que a velocidade do crescimento da infecção é alto.”

Tenho acompanhado a pandemia no Brasil e em Minas Gerais, construindo gráficos que permitem produzir inferências estatísticas e possuo, pelos números oficiais do Brasil, convicção absoluta do equívoco praticado pela prestigiosa universidade londrina. Mas não precisamos de tanto: pela assertiva do Imperial College de que a transmissibilidade da doença é de cada doente produzindo 3 outros diariamente, o número de novos doentes estaria triplicando quando, na verdade este índice é 53 vezes menor, ou seja, hoje são necessários 18 doentes para a transmitir o vírus a uma pessoa.

Como qualquer leigo em estatística pode constatar que de ontem para hoje o número de contaminados não triplicou, resta indiscutível, que os números da universidade estão equivocados ou distorcidos ou até mesmo se referem aos primeiros dias da pandemia quando os infectados passavam de dois para seis, aí sim, com transmissibilidade igual ao que foi divulgado no dia 30 de abril.

Antes mesmo de ser uma coluna dedicada a desmerecer as universidades, das quais fui um beneficiário que reconhece seus méritos, dissertei aqui apenas para os cuidados que todos devemos ter para não dogmatizarmos informações mesmo que chanceladas por entidades de grande notoriedade.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA é engenheiro eletricista e ex-político