Opinião

Hasta cuando?

Washington L. Tomé de Sousa

23 de junho de 2021

“Até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (Jeremias, o profeta)
A arguição do profeta, dirigida aos israelitas há milhares de anos, não se findou no passado longínquo, mas repercute até os dias atuais, sobre toda a terra, sobre cada um de nós.

Em documentário recente sobre a Segunda Grande Guerra, o narrador, em suas palavras finais, chega à conclusão de que a humanidade, de lá para cá, não aprendeu quase nada, pois se repete nos dias atuais, fomentando os mesmos ódios, antagonismos, intolerâncias, xenofobias e tantos outros antivalores que grassavam no mundo àquela época e que hoje retornam ganhando força cada vez maior na sociedade e entre as nações (a ONU bem que poderia se chamar de Organização das Nações Desunidas… e as redes sociais de redes antissociais).

Um mundo ‘perfeito’ – duas visões fundamentalistas
O Conservadorismo, grosso modo falando, com foco no passado, quer manter as coisas como sempre foram. Inadmite a evolução das pessoas e das instituições e das relações entre ambas. Persegue a visão de um mundo perfeito, pronto e acabado, estático, cujo modelo encontra-se no passado, nas coisas já consolidadas, tem aversão às mudanças, ao novo – talvez uma reminiscência no inconsciente coletivo de um ‘paraíso perdido’.

Por sua vez, o Idealismo, sumariamente falando, quer construir uma sociedade ideal, perfeita, idílica, um paraíso social utópico, que seria o ápice da evolução humana. Para tanto, as estruturas sociais, políticas, econômicas, religiosas, filosóficas existentes têm que ser removidas, para se estabelecer uma nova visão da vida que, supostamente, apresenta-se como superior. Persegue-se o sonho de uma sociedade pronta, acabada e perfeita, para além, no futuro.

Dois extremos que se tocam, pois objetivam a mesma coisa, por caminhos diferentes: a criação de um mundo perfeito, pronto, acabado e imutável (perdoem-me a repetição, mas necessária), de felicidade eterna. O primeiro, com fundamento no passado. O outro, com foco no futuro. A isto, a este estado de imutabilidade perfeita que ambos buscam, só se pode dar um nome: morte! E, enquanto essa ‘morte ideal’ não chega, digladiam-se estas duas correntes de pensamento – e os seus seguidores – tentando se matar aqui e agora.

Crescei e multiplicai
É da natureza da vida a renovação, a regeneração, a transformação (como teorizou o cientista francês Antoine-Laurent de Lavoisier que “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” – Lei de Lavoisier). Logo, o mundo real e todo o ser humano são instâncias sempre em construção, cujo aperfeiçoamento, contínuo, deve ser por todos perseguido para que não haja estagnação e a história não se repita “ad infinitum”, como se tem observado. Já dizia Albert Einstein que “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Para que possamos ter esperança de um mundo melhor para todos, de construção de uma sociedade mais justa, dinâmica e sempre se renovando para melhor, isso só se dará com a implementação de novos valores que permeiam o nosso cotidiano, tais como: vida, liberdade, justiça, solidariedade, fraternidade, honestidade, dignidade, honra, compaixão, tolerância, fidelidade… uns, de caráter universal e atemporal. Outros, de construção restrita a grupos e sociedades menores e sujeitos à temporalidade. Em contraposição, também convivemos com: descaso pela vida, egocentrismo, inveja, desonestidade, traição, desamor, prepotência, manipulação e tantos outros mais antivalores. Assim como o corpo humano é habitado por trilhões de micro-organismos – e a sua saúde e a manutenção da vida são garantidas pelas bactérias que o defendem das que o agridem -, povoamos e vivemos em um mundo complexo e, também, como seres de alta complexidade. Quando habitualmente os nossos instintos primários, animais, se sujeitam a princípios salutares e dirigem o nosso comportamento, produzimos vida. Se somos rotineiramente dominados pelos impulsos primais, e a eles damos vazão pela via dos desvalores, manifestamos pulsões de morte na nossa própria existência e na sociedade em que estamos inseridos. De quais deles temos sido agentes?

“Ex nihilo, nihil fit” (Do nada, nada acontece, ou nada provém)
Ao recorrermos a princípios, sejam eles quais forem – científicos, éticos, do Direito, religiosos… em quaisquer circunstância que nos encontremos e para os quais apelemos em busca de socorro para as nossas demandas cotidianas -, não nos esqueçamos de que o fazemos, ainda que de forma não consciente, alicerçados e comprometidos com valores anteriores que os validam e que, muitas vezes, desconhecemos, porque refogem à nossa consciência, por terem origem em uma instância à qual, ou por obtusidade ou por orgulho intelectual (essas duas coisas costumam andar juntas), negamos existência. Sem eles (os valores), não sairemos do patamar da animalidade e das suas consequências que diuturnamente ‘dialogam’ conosco através dos fatos quase sempre desagradáveis e trágicos da vida.

Aproveitem, ainda, a oportunidade do recesso da pandemia da Covid-19 e pensem nisso!
Saúde e paz a todos!