Opinião

Haja altruísmo

 Opinião / Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

20 de junho de 2022

Fico sabendo que o preço do petróleo subiu nas refinarias. Daí, o reajuste para as bombas de combustível, é um pulo. Para os menos otimistas, greves à vista. Em época de eleição prefiro não acreditar. Como num tabuleiro de xadrez, mexe daqui e dali – dá-se um jeito. Se bem que as mãozinhas irrequietas de Paulo Guedes andam muito manjadas no cenário econômico.

Mas não há meio de segurar o aumento porque tudo depende da política externa e do desassossego implacável do dólar. Moeda que vira e mexe, nos contornos e segmentos econômicos, tem sua importância capital nas Bolsas de Valores do mundo inteiro. E ao largo – e bote largo nisso – em detrimento da guerra entre Rússia e Ucrânia. A questão é mais ou menos essa: brigam lá, a 11 mil km de distância, apanhamos nós aqui, sofrendo com o impacto nos preços do barril. Lembrei-me por acaso: “o pau que dá um Chico dá em Francisco”, expressão, acredito, nada tem a ver com isso.
E antes que pensem que fui pego no contrapé, digo que não. Previamente avisado de que os valores das tarifas do pedágio sofreram reajuste de 12%. À mercê de meia dúzia de pedágios a cada dúzia de dias e o preço da gasolina nas alturas, apelo à teoria exacerbada de que tudo vai subir. Só não sobe aquilo que o tempo determina, por mais se queira, não sobe mesmo. E não carece explicação para o que se está falando, porque biologicamente é de domínio público.

Nisso de sobe e desce e cai não cai, para formular a Lei da Gravitação Universal, Isaac Newton sentiu na cabeça o peso da maçã que caiu de uma árvore enquanto passeava pelo jardim de sua casa. Simplesmente foi assim.

Nós, brasileiros, não. Bem ao contrário do que dispõe a economia mundial, tornamo-nos reféns e cativos de notícias que mexem com os nossos bolsos e orçamentos e não deixam de saquear. Saquear, no sentido de assaltar e no sentido de encher o saco mesmo. Faço por acolher o neologismo de bom grado.

Talvez levado por inusitada emoção e não por questão meramente econômica, o saudoso amigo Dr. Lamartine Ramos (perda partida mais sentida que tive em Formiga) tinha por hábito colocar R$10,00 de combustível em seu veículo. Só ficava nos dez. Prática contumaz mais pitoresca do que funcional – bem-vindo ao Brasil – não durou muito. Até um dia que o ponteiro do medidor deixou de marcar a quantidade recebida: zero. Ou perto disso.

Assim, deliberou deixar o carro em casa. Certa feita, ao passar por mim no Terminal Rodoviário, a pé, rumo ao consultório odontológico, cumprimentei-o e não perdi tempo. Perguntei pelo seu possante. Jamais vou esquecer a resposta, até certo ponto jocosa: – “Tá em casa, quer pro cê… Pode pegar!”

Em razão de tudo que anda acontecendo, tantas as anomalias, vendo como está difícil viver e tocar a vida com um mínimo de dignidade e decência, em meio a tanta bandalheira acontecendo, penso que seria interessante descobrir outras fontes e leis naturais para melhorar nossas vidas. Mas, como?

Para o filósofo positivista francês, Augusto Comte – para uns meio maluco, para outros nem tanto – pode sim. Segundo ele, por meio de experiências positivas “poderíamos formular nossas legislações e também analisar e observar a nossa sociedade com o objetivo de tornar melhor”.

Pelo sim pelo não, em respeito às personalidades citadas – Isaac Newton, Lamartine Ramos e Augusto Comte – devemos continuar na prática da fé. Não necessariamente na mesma ordem, aos enunciados: a) entender os dez reais de combustível de Lamartine até que o ponteiro do marcador não acuse mais e o veículo em definitivo vá para a garagem; b) apegar-se à teoria de Comte, no aguardo de uma sociedade satisfatória para vivermos com pessoas, rindo ou chorando, afinal temos de conviver; e, por último, não deixando Isaac Newton fora do páreo: c) nem tudo que sobe desce, lembrando, no inverso, em meio a tantas e questionáveis dúvidas e burocracias, se aplique o benefício da dúvida. Afinal, nem tudo que desce sobe.
Nem que a vaca tussa, não acredito que um dia o petróleo terá seus momentos de glória e vá a patamares inferiores para alegrar a humanidade. Desde que tornou-se commodity (poucos sabem o significado) é o bicho mais azedo e mais influência exerce sobre a inflação no Brasil e no mundo, tamanha sua força, brutalidade e massa.

E por mais tentem resolver o impasse do petróleo mediante redução de impostos e tributos que incidem sobre os combustíveis, a verdade é que nesse setor não existe mágica. Agora sim, a mão e a luva: “o pau que dá um Chico dá em Francisco”.

Um eterno virar-se e revirar-se nos trinta.