Opinião

Flashes da literatura de Rubem Fonseca

29 de abril de 2021

Dia desses me lembrei de um triste fato ocorrido há um ano, para ser preciso, em 15.04.2020, e que muito repercutiu. Refiro-me à morte de Rubem Fonseca, por certo, um dos imortais da nossa literatura. O episódio também me fez recordar de que fiquei devendo a mim mesmo e a vocês algumas palavras a respeito das obras desse grande escritor.

Comecei a conhecê-lo em dois romances, “A grande arte”, um livro que li há muito tempo, entre setembro e outubro de 2001, e, mais recentemente, “O caso Morel”, este já em janeiro de 2016. Em relação a “Agosto”, que intercala ficção literária com o governo Getúlio Vargas, inclusive seu suicídio, e acabou adaptado para uma antiga minissérie da “Globo”, ainda não cheguei a ler.

Se há algo que eu possa dizer sobre Rubem Fonseca é que basta se envolver em suas obras para não desejar sair, tamanha a sua capacidade de nos captar a atenção com personagens e tramas inesquecíveis, em que elabora um misto de romance policial com elementos de críticas sociais e farpas ao melindroso universo da intelectualidade.

Entretanto, como já realizei a leitura dos romances há anos, prefiro recorrer, no momento, a exemplos de outro gênero de sua literatura, os contos, que fazem jus, do mesmo modo, ao alto reconhecimento que lhe devotam os críticos literários e o tornam merecedor dos vários prêmios que recebeu ao longo da carreira.

Sim, Rubem foi também um mestre nesse estilo. Já o disse em um dos artigos de meses atrás que o conto representa, nos dizeres do escritor argentino Júlio Cortázar, uma espécie de literatura do nocaute em razão de seu poder de impactar o leitor através de poucas páginas, enquanto o romance só poderia vencê-lo por pontos.

Naquele texto, eu mencionava uma fonte extraordinária organizada pelo professor Ítalo Moriconi, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, em cujo corpo, ele nos oferece um belo panorama da literatura brasileira durante o século XX, ao utilizar somente as obras de nossos melhores escritores num período que abrange o início do referido século e se estende até o final da década de 90.

Em tal seleção de tantos grandes nomes, lá está, claro, Rubem Fonseca, em dois dos textos de seu livro “Feliz ano novo”, que acabou censurado nos anos 70 por ferir valores morais. Chamam-se ambos “Passeio noturno”, partes I e II. Em pouquíssimas páginas – não passam de oito ao todo -, fica evidente, mais uma vez, o talento que ele expõe no domínio do gênero.

A naturalidade com que narra situações incomuns, à base de frases curtas, diretas e de fácil compreensão, é uma de suas grandes características. Uma vez tomado pelas palavras iniciais, lá se vai o leitor, ávido pelo fim das histórias. Nas duas partes, um estranho assassino utiliza algumas artimanhas para a realização dos crimes.

De fato, basta se envolver com o inusitado dos enredos, com a surpresa em si, para admirá-los, mas há sempre algo além, que reside num tipo de ironia ou crítica implícita às relações socioeconômicas já em predomínio nos anos 70. Lá estão o poderoso industrial, – hoje, empresário –, ao lado da prostituta e do tédio dos casamentos de aparência. Lá está a busca dos prazeres ocultos, o mundo dos crimes e o multifacetado ambiente do Rio de Janeiro, tudo sob o olhar do arguto observador que ele sempre fora.

Segundo a análise do professor Moriconi, “o contista brasileiro dos anos 70 quer desafinar o coro dos contentes.”
Anos depois, adquiri outro de seus livros, uma coletânea também de contos, que possui uma destinação específica que vem expressa no título, “Secreções, excreções e desatinos”. Em suma, narrar o absolutamente inesperado, incomum, bizarro. A literatura possui o dom de fazer água de padrões estabelecidos.

Nesta obra, florescem personagens obsessivos, paranoicos, malucos no sentido popular, mas que narram a própria maluquice com a mesma naturalidade, como se normais fossem seus atos tresloucados, como se o estranho das atitudes que praticam fosse a regra, como se os crimes até bárbaros que cometem estivessem livres de qualquer nível de culpa em termos de consciência. São contos em que os relatos de excreções típicas do nosso corpo e os níveis de desatino em que a paranoia dita os rumos da conduta de personagens, temas complexos em si, acabam abordados de uma forma muito bem construída.

Creio que a leitura de Rubem Fonseca significa um passeio pela escrita clara, sem rodeios e com incursões pela linguagem coloquial do brasileiro, tudo em meio ao que emerge de seu conhecimento da nossa realidade, justo por ter tido bastante experiência na área das ciências jurídicas como advogado, comissário de polícia e estudos na área da medicina legal. São ofícios que lhe fortaleceram, sem dúvida, a grande imaginação e o manejo da escrita que gerou obras consagradas no mundo da literatura.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna