Opinião

Eu sou você amanhã?

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

26 de Maio de 2021

Chile completa 40 dias de convulsão social sem chegar à paz …”; “Saques, incêndios e medo da falência: o impacto da convulsão social no Chile para as pequenas empresas”; “‘Modelo’ de Guedes levou Chile à convulsão social … Paulo Guedes, tenta implantar no Brasil o modelo chileno de reestruturação do Estado.

Estas são apenas algumas das inúmeras manchetes recentes sobre a crise social e econômica que se abateu sobre o Chile. Após meses de convulsão social, chegou-se à indicação de um caminho mais viável para a saída da crise lá instalada: a eleição de uma Assembleia Constituinte que redigirá nova Constituição, com foco, dentre outras matérias de relevo, em restabelecer a seguridade social, que se encontra muito precarizada pela reforma ultraliberal sofrida há alguns anos, levando grande parcela da população chilena (aposentados, pensionistas e suas famílias) à situação de miserabilidade e de desespero hoje (“Modelo Guedes”).

Em novembro de 2019, já advertíamos aqui sobre o desenrolar desta recente crise no Chile, que paira como fantasma sobre o Brasil também, em artigo que passo a reproduzir: “Se os primeiros governos tanto de Bachelet quanto de Piñera eram símbolos de mudança, as segundas gestões de ambos esgotaram o estoque de esperanças. Eles pegaram a retroescavadeira e enterraram os melhores tempos. Eles estavam surdos à falta de um projeto nacional, um caminho para o desenvolvimento, uma meta compartilhada que desse sentido às dificuldades cotidianas…” (Daniel Matamala, jornalista chileno, sobre a atual crise social e econômica no Chile).

Propaganda da vodca Orloff, na década de 1980, ficou famosa ao cunhar a expressão “Eu sou você, amanhã”, em que personagem que bebia vodca de má qualidade amanhecia, no dia seguinte, com tremenda ressaca. Na década posterior, dos anos 90, tal sentença foi largamente usada para se compararem os acontecimentos políticos, econômicos e sociais que ocorriam na vizinha Argentina aos que se sucederiam no Brasil, pois, envolvidos ambos com planos econômicos mirabolantes e promessas políticas ‘salvadoras’. Os fracassos que ocorriam na Argentina àquela época, serviam de advertência ao Brasil, que seguia o mesmo caminho, o mesmo modelo populista em suas políticas, e colheria, fatalmente, os mesmos resultados no futuro: “Eu sou você, amanhã.” A dor de cabeça, a ressaca econômica, era inevitável, culminando em hiperinflação ao final do governo Sarney e outros graves problemas sociais que repercutem até os dias atuais.

De lá para cá, vários governos se sucederam no Brasil, de esquerda, de centro-esquerda e, no momento, apresentando-se como de direita, ou de centro-direita (Bolsonaro). E a história ameaça se repetir, com a apresentação de projetos de reformas previdenciária, administrativa, tributária… todos com viés acentuadamente economicista, desprezando-se a dimensão social da natureza do Estado. Se as administrações anteriores priorizaram esta última dimensão, descurando da economia, o que proporcionou a destituição da sua última representante da presidência da república (Dilma Rousseff), sob a acusação de crime fiscal, a atual foca no econômico, relegando a segundo plano o social.

O Brasil sempre procurou se posicionar, politicamente, de forma independente no concerto das nações, como um “país não alinhado” às disputas globais entre as grandes potências, até mesmo em momentos de grave polarização, como o da época da “guerra fria”, conquistando respeito internacional em seus posicionamentos. Corre o risco de perder esta independência, agora, ao se alinhar, incondicionalmente, a qualquer uma delas. O mesmo risco está correndo na economia, ao mirar em modelos econômicos alienígenas e desvinculados da nossa realidade sócio-econômico-cultural de um país continental, complexo, diverso, desigual, e, quase sempre, complicado.

Precisamos construir e trilhar o nosso próprio caminho, independente de ideologias, criando nossos próprios modelos de desenvolvimento, aplicando e adequando à nossa realidade o que há de melhor na experiência das nações. As crises que se repetem, agora, na Argentina e no Chile, não precisam se reproduzir no Brasil. Vale a advertência do jornalista chileno, posta ao início deste artigo: a de que precisamos de “um projeto nacional, um caminho para o desenvolvimento, uma meta compartilhada que dê sentido às dificuldades cotidianas.” É o que almejamos todos.”

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, Bel. em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna