Opinião

Estapear não é preciso

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho 

21 de junho de 2021

As pessoas precisam saber o que é importante para se viver em comunidade. Primeiro de tudo, o respeito deve ser alvo de análise e ponderação harmonizante. Providencial explicação para a expressão “ponderação harmonizante”. Para conclusões apressadas, uma forma criteriosa de se buscar a harmonia social com discernimento e prudência. Daí se evita possíveis desgastes de ordem constitucional, na imprescindível busca do convívio pacífico. Não só no sentido do conjunto das leis maiores, também no que diz respeito à massa corporal do homem, este no sentido genérico, na avaliação e valorização na diversidade.

Parece um pouco complicado, mas procuremos entender, para se chegar à questão fundamental. Saber respeitar as desigualdades, esse o melhor caminho e lutar pelo bem. Ninguém é igual a ninguém. Entre pessoas há diferenças. Uns podem mais, outros menos. Numa boa definição, de lembrar-se a escolar, o começo de tudo no aspecto do aprendizado: “Respeito à diversidade no ambiente escolar facilita o trabalho em grupo, evita sofrimento e constrangimento, melhorando o ambiente. Além disso, facilita o trabalho dos educadores e pais, abrindo portas para um aprendizado maior e melhor, derrubando barreiras desnecessárias”. Por desconhecer o autor, entre aspas.

Na simplicidade do teórico, algo bem prosaico: João é alto; José é baixo. João é moreno; José é claro. João é magro; José é gordinho. João é professor; José é pedreiro. Os dois têm vencimentos e salários quase iguais. Carlos, por sua vez, é empresário. É alto, forte e moreno. Ganha mais do que os dois juntos.

Os três têm em comum algumas peculiaridades. Vivem numa mesma cidade, mesmo bairro, frequentam a mesma igreja, mesma sociedade. Mas torcem para times de futebol diferentes. Como também têm estilos musicais nada a ver um com o outro. Enquanto o primeiro gosta de MPB o segundo gosta de músicas sertanejas e o terceiro gosta de rock e jazz.

No âmbito da política, o professor é adepto de ideias progressistas, o pedreiro tem ideologia voltada para a esquerda, ao passo que o empresário tem sua política calcada no neoliberalismo, que é a liberdade de mercado para o crescimento econômico.

Os três se encontram regularmente na mesma igreja, num mesmo clube no qual jogam futebol e botam conversa fora, com tempo ainda para umas partidinhas de truco.

A priori, analisando o conjunto da obra poder-se-ia dizer que os três não apresentam nenhuma afinidade para razoável entendimento. No entanto, não é bem assim. O motivo a dar sustentação ao relacionamento entre os personagens é um só: o respeito. Muitas as diferenças – incluindo a física e econômica – o ingrediente básico a ser considerado é o “respeito”. Este se sobrepõe a possíveis e reais diferenças entre eles e outras pessoas e de outros segmentos.

Ao ingrediente respeito também se pode juntar outro para a fertilidade de celebrado convívio: a aceitação. Sim. Aceitar as diferenças do outro é fundamental. Aí que está. Se não houver aceitação, danou-se a ausência de qualquer modalidade de conflito, distúrbio ou discórdia, trinômio que pode resumir e traduzir-se em paz. Pronto e ponto. Aceitação e respeito, componentes perfeitos para a confluência da paz.

Noutra vertente, existem figuras fortes, bonitas, em tese e oficialmente, deveriam servir à Pátria, e bem. No lamentável, muitas não o fazem. Assim como, bem ao lado, na opacidade da imagem, existe a figura pouco apreciada pela sociedade. É a pobre mulher da praça. Estudos acadêmicos classificam-na como invisível. Para os olhos de alguns não é forte e bonita. Distancia-se do luxo, glamour e elegância. Pelo contrário. Veste-se mal. Não traz consigo a fragrância da colônia italiana Bvlgari. Cheira a suor do sofrimento e da vida dura que leva.

No cenho franzido, e no físico, a aparência da mulher maltratada. Inúmeros os problemas familiares. Abertura natural a desordens físicas e psicológicas. Faz tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em Formiga. Não apresenta traços de importância no que chamam de “belo quadro social” de capitalistas dias.

Que pena. Entretanto, há quem lhe bata. No rosto. Na cabeça. E lhe desfere ódio. Quem devia protegê-la. Melhor pensando, talvez não apanhe. Deixa-se estapear pela natureza e incongruência da sorte. Lei universal, não dói tanto quanto a mão que lhe de bate. Com certeza, não. Esta se machuca mais. Muito mais. As imagens falam, dizem e choram por si. Não tão preocupante o padecimento por tapas desferidos. Preocupante, mais, muito mais, a dor da mão dolorida pelo ato vil praticado.

Quando se pergunta: quem sofre mais: quem recebe covardemente os tapas – no atacado e varejo se vale de constelações de consideração e bênçãos, ou a ofensora, que nada mais colhe do que espinhosas ofensas públicas de indignação, de alto a baixo? Pronta e acabada, a resposta virá com o tempo (ainda senhor da razão), de baixo e do alto.

Seja bem-vinda, irmãzinha da Praça da Comunidade, de salpicadas Areias Brancas! Praça da Alegria! Da desfaçatez! Da ordem e desordem! Seja lá o que for. Bem ao estilo mineiro: “É nóis”. No efetivo, a tragicomédia produz atores e atrizes. Há os que recebem o dom da oração pela desfeita recebida e há os que necessitam do poder da comiseração pela carência efetiva do amor fraterno. Dualidade interposta para análise psicossocial.

Quem sabe a mão pode vir a tornar-se mãe. E, então, tomar ciência do que é certo e o que é errado. E ensinar. E tomar e beber do ensinamento do bem. Parafraseando Augusto dos Anjos: “A mão que bate é a que consola”. Será que um dia a frase e a lição poderão ser apreciadas e refeitas?

Neste mundo tão diverso e diferente, em que há unidade em tudo e para tudo. Já que o ar que se respira no igualitário. Ainda que haja artificialidade no socorro. E existe o dom de perdoar. Não se sabe, no entanto, se o som das bofetadas desferidas – grotesca e impiedosamente – há de permitir claramente se ouça o som do perdão, nascido e brotado do coração de quem no ato as sofreu, numa praça de uma cidade, cujo povo ama os seus do jeito que são e como estão. E procura ajudar.

As algemas utilizadas na pobre mulher – ao arrepio da lei e da necessidade – ficam como que metáfora mórbida por um ato insano praticado por agentes que, antes e naturalmente, devem saber que há gentes clamando por proteção e cuidados.

Com o devido respeito: a quem não se presta a servir à comunidade e à ordem pública; a quem não se enquadra no papel de guardião (ou guardiã) de uma sociedade civil organizada, envolvendo direitos fundamentais; a quem não faz por garantir a integridade e a vida das pessoas de sua comunidade, seguindo os preceitos legais; a quem foge da nobre missão que lhe foi outorgada, sobretudo, no respeito à dignidade da pessoa humana… Queiram os demais aceitar as mais dignas, honradas e elevadas homenagens!