Opinião

Efeitos Subliminares

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

10 de Maio de 2021

Um escritor que se preze não se vale apenas daquilo que escreve. Como a grafia impressa no contexto. Mas da forma como o faz. Pelo que instiga no campo subliminar. Subliminar “é o que está gravado no ânimo, o subentendido nas entrelinhas”. Agindo dessa forma, permite o leitor a pensar, imaginar, refletir, a se posicionar, a dar saltos. Ir para onde quiser. Bonito quando o autor se vale de habilidades para dar beleza, sentido e riqueza ao que escreve. Mesmo quando a palavra não está expressa em letras, seja por quantificação ou qualificação, consciente e inconsciente. Quão importante é, em muitos casos, o silêncio.

E não é tão diferente quando de um debate. Faz lembrar o bom debatedor mineiro. No campo da dialética (debate pelo diálogo em busca da verdade) o mineiro costuma ser hábil nas discussões. Único e insofismável motivo: fala pouco, pensa mais e antes. Quando fala, costuma fazê-lo acertadamente. Esse o bom mineiro. Efetivamente respeitado e aplaudido por suas raízes históricas.

Sabidamente, Minas é feita de muitos e auspiciosos escritores e oradores. Do seu jeito, é claro. Mineiro não é de esquerda e nem de direita. Muito pelo contrário. Nem se atreve a ficar em cima do muro. Quando fica é pra espiar o que está do outro lado. Ou além da serra… E da outra serra. Quando não pra comprar as serras. Mineiro é isso e aquilo. E muito mais. Um amontoado de coisas. Por isso é famoso no concerto da federação. Em tudo e por tudo está o mineiro. Sabem por quê? Porque Minas está atrás, ou melhor, na frente de tudo. É vanguarda. Tudo começa e quase termina por Minas.

Veja a história tupiniquim. Sem praias, Minas se espraia por todos os lados e cantos. Tantos e belíssimos cantos. Minas é saudação musical. Pela conjuração dos inconfidentes, o mineiro aprendeu a reservar-se no que há de melhor. Mudança de assunto, dia desses um amigo me liga apavorado. Fora atacado na honra e vilipendiado na dignidade. Espairecia num conhecido boteco da cidade. Tomava cerveja na tranquilidade de boa toada. A certa altura de uma conversa, própria de botequim, viu-se no meio de um vendaval. Fechou-se o tempo.

Segundo o próprio, faltou pouco para chegar-se a um show de luta livre com um desconhecido. De longe, vi em sua voz mais que preocupação. Uma inquietação próxima do pânico. O mais delicado, segundo ele, ‘por nada’.
Conversavam sobre política, de repente, a encrenca. De imediato, retruquei:

– “Discutir política em bar? Isso não presta, não rende. Como ousa?” – adverti.

Explicou-me o motivo. Assuntei, passei os fatos num processador. O pior de tudo – pontuei – o objeto da questão é o ‘nada versus coisa alguma’. E tome rebu em forma de estardalhaço. No centro da barafunda, o caos: as figuras de Lula e Bolsonaro. Depreendi: um, defendendo um; outro, defendendo o outro. Os de fora, alguns sem partido, danação em forma de desespero.

Deu-se, no ato, a instituição de tempos medievais. E pelas vias, não só de fato, mas da falta do que fazer. Discutir política, religião e futebol em bar? Ora essa! Estivessem discutindo os destinos políticos da Nação em grande estilo, a democracia no alto sentido social… Mas não. Desconexão temática num momento impróprio de descontração.
Lembrei-me do bom debate no plano da preservada educação. A figura do mineiro cauteloso e desconfiado.

Reticente, trava conversa na precisão. Na hora certa. Não era o caso. No meio do acalorado, o desaprumo.
Então disse ao amigo para não prosseguir a discussão. Não ia chegar a lugar algum. Melhor parar com a bobagem da prosa sem nexo. E de nenhum proveito econômico, moral e social. Respondeu-me que o queixoso não liquidava a prosa. Encolerizado, queria briga. Enxurrada de ofensas. No vozerio, pessoas se apinhando e se aglomerando.

– “Olhe a Covid aí!” – gritei ao telefone.

Para uma resolução de conflitos, seja de que natureza for, o melhor é a conciliação. Àquela altura, sem chance. O retórico não cedia espaço à benevolência. Bom caminho para o bom estilo: fazer de conta que as opiniões adversas são as corretas. Não havia como. Chegou-se ao extremo da estupidez. Pelo bem da serenidade, como morava perto, lhe fiz ver que o melhor era ir pra casa. Não sem antes perguntar o que fez para deixar o oponente possesso.

– “Respondeu-me que nada”.

Conveniência do óbvio, o ‘nada’ saiu chocho. Algo tinha feito, sim. Com certeza, no caso, o acaso um item a ser observado. Injuriado, atendeu ao meu apelo. Foi pra casa. De longe, acompanhava o desenrolar dos atos pelo telefone. Impaciência, impropérios, inconsequentes xingatórios. Nada que pudesse agregar e absorver.

Fim de noite, iminência de bons sonhos, ele já em sua morada, ouvi na outra ponta:

– “Na verdade, só falei ao meu opositor que eu não era bolsonarista. E todo Bolsonarista é burro e otário!

Sem pretender (já querendo) ouvir o óbvio: – “Ele é o quê?” – “Uai! Bolsonarista idiota!

– E você? – perguntei. – “Bem, eu defendi o trabalhismo sério, a boa educação, o SUS, organismo criado nos tempos áureos da boa política, o que a besta quadrada não sabe a mínima”, falou.

Percebendo que não havia ingredientes para dar liga. E para fechar belas cortinas de uma noite fresca e em busca de aprazíveis sonhos, recorri à canção “Tender Is the Night” (Suave é a Noite), na voz marcante de Tony Bennett, tema do filme mesmo nome, baseado no clássico de F. Scott Fitzgerald, laureado escritor norte-americano do século XX.
Querem saber? Milhão de vezes mais interessante do que tomar conhecimento ou partido de discussões estéreis e inúteis. Tanto ou mais ineficazes para a história do Brasil. Cá com os meus botões, Joe Biden riria às pampas lá na Casa Branca ou em qualquer parte do mundo.

Sem prescrição médica, ou pela linha do tempo um tanto quanto serôdio, em consideração ao tempo gasto e não perdido, rir continua sendo o melhor remédio. Mesmo em situações chatas, desagradáveis e sem graça alguma. Querem saber? Lutar por nada é inglório. Por coisa nenhuma é burrice. Lutar pela paz é valoroso. Como se diz no Bairro São Francisco, em Passos, discussão em boteco, sobre qualquer coisa, não dá pedal.