Do Leitor

Minha culpa, minha máxima culpa

13 de janeiro de 2022

Nada mais compungente e para muitos nada mais revoltante, do que a súplica de um ser humano flagelado, destruído pelas condições impostas pela vida, sejam naturais ou provocadas.
E a situação é potencializada quando a própria vítima se vitimiza mais ainda, considerando que possui a culpa pelos acontecimentos extras de sua vida.
Vejam nas frases a seguir como se considera aquele que reza e não é atendido:
“Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, Eu acho que a culpa foi, Desse pobre que nem sabe fazer oração”.
É da poesia de Gordurinha e Nelinho, que virou música clássica no Brasil, não naquele “assassinato musical” feito pelo O Rappa, mas com o sentimento de Fagner, Luiz Gonzaga e outros.
Aqui em Minas Gerais, agora em janeiro de 2022, com 15% dos municípios em estado de calamidade pública pela inundação destruidora e mortal, igual em muitos outros estados, esta música feita inspirada na catástrofe nordestina, pode estar sendo entonada silenciosamente na alma dos que sofrem na pele os efeitos da devastação.
Abaixo a letra completa feita por ocasião de uma inundação de poucos precedentes, ocorrida no interior do sertão queimado no nordeste brasileiro:
“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado / Que de joelhos rezou um bocado / Pedindo pra chuva cair sem parar / Oh! Deus, será que o Senhor se zangou / E só por isso o sol se arretirou / Fazendo cair toda chuva que há / Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho / Pedi pra chover, mas chover de mansinho / Pra ver se nascia uma planta no chão / Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, / Eu acho que a culpa foi / Desse pobre que nem sabe fazer oração / Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água / E ter-lhe pedido cheinho de mágoa / Pro sol inclemente se arretirar / Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno / Desculpe eu pedir para acabar com o inferno / Que sempre queimou o meu Ceará.”
Um hino à indiferença divina diante das inúmeras, e inúmeras, e inúmeras mazelas humanas.

Roberto Barbieri – Passos/MG