Opinião

Distanciamento social

27 de abril de 2020

No desespero de cidadão qualquer, sem olhar para tempo e relógio, nem dar conta de nada – senso de responsabilidade, peso moral –, muno-me de roupa esporte, vou à garagem, pego o carro e saio sem rumo determinado.

Abaixo o lockdown! Um basta à prisão domiciliar.

Tarde da noite, início de madrugada fresca, escuridão total. Sinal de poucas almas verticais. Projeção de gatos pingados de comércio aberto e semi-aberto. Ar respirando preocupação coletiva. Pouquíssimo movimento nos logradouros da cidade. Isolamento social. Única e indispensável medida para conter a pandemia da Covid-19. Para desagrado, bicho feio que veio para tirar-nos a paz.

Calmaria sistêmica cheirando a morte de desavisados e números incertos de vítimas pela contaminação. Nem sei o porquê de se estar desobedecendo a normas médicas e sociais. Do racional ao desespero. Humanos suscetíveis ao estresse pela quantidade de dias em confinamento horizontal.

No possível, mais um na condição rebelde e anormal de desalento, desânimo, ao tempo que fúria. Desço e subo a rua Uberlândia. Atravesso a pracinha do Roosevelt. Adiante, tomo a avenida da Moda. Passo por postos de combustíveis. Raras e esquálidas figuras denotam tonalidade obscura na escala de fluxo algum. Luzes poucas na fragilidade para quase nenhuma magia neon de cor vermelho alaranjada. Não surtem efeito em almas repletas de dores misturadas ao desespero de um silêncio intumescido por ares à mercê do inimigo.

Ao cabo da avenida, torço o volante à direita, rumo à praça da Matriz. A quietude do breu me acompanha num cortejo frio, próximo ao sepulcral. Atravesso a igreja Matriz, passo antes por um posto policial. Nenhuma viatura à porta em caráter de espera. Mesma condição de marasmo. Despojado de ânimo, dou início ao contorno da praça. População recolhida. Notívagos se rendem ao isolamento forçado. Amantes da noite submetidos a encarceramento em massa. Quando me dou conta de um vulto a poucos metros de uma banca de jornal. Indica ser mulher. Àquela hora? Local ermo e perigoso. Por mórbida insensatez, estaciono o carro, abro a porta, desço, e me dirijo à estranha figura. De fato, uma mulher. Nova ainda. Avaliação prévia, não mais que 18 anos. Antes que eu fale alguma coisa, ela se adianta, e diz “oi”. Saúdo-a com um gesto. Pergunta se tenho cigarro. Digo “não”. Faz-se silêncio por instantes. Olho pra ela. Traços bonitos. Modestamente trajada. Conjunto jeans, calça e blusa. Brinco de argola insinuante. Corpo médio, bem distribuído.

Pergunta-me se quero companhia. “Àquela altura, todos gostaríamos. Mas impedidos no distanciamento imposto”. Abaixa a cabeça e demonstra insatisfação e enfado. Nada fala. Pergunto-lhe o nome. Diz, sem vontade. Apresento-me. Pondero se não tem receio de estar ali só. Local de risco. Alega: “todos os lugares são de risco. Pior seria em casa. Mãe doente, dois filhos pequenos, sem recursos. Lá, sim, muito pior”. E que ali, naquele lugar, no seu entender, ainda remota, alguma perspectiva. Possibilidade.

Convida-me a um passeio. Sem magoar, fosse para tirá-la da área do desconforto, sim. Levar para casa, talvez. Voz mansa, mas firme, agradece. Precisa esperar. Acreditar no possível, no “quem sabe”. Insisto que pense na proposta. Um local livre do perigo, ainda que simples metáfora. Responde: “e volto para casa sem nenhum! Não posso. Nem pensar!”

Faz-se breve pausa. Respondo: “não. Com algum”. Incontinenti: “então topo. Podemos”. Levanta-se. Nada falamos do “quanto”. Pergunto onde mora. Explica. Digo ok. Abro educadamente a porta do carro e ela entra. Atravessamos boa parte da cidade. Bem longe do centro. Não puxo conversa, nada que não queira falar. Torna mencionar “companhia”. Confirmo a ideia de não se querer estar só. Não exatamente para o fim a que se refere. O fazer por fazer.

Depois de uns vinte minutos, chegamos à porta de uma casa que julgava ser a sua. Adianta-me: “moramos de aluguel, numa casinha de fundo”. Pede-me reserva de silêncio. Paro o carro. Avalio tempo. Local exigindo cautela e cuidados. Ou seja: pouca ou nenhuma demora. Olho para ela. Abaixa-se, faz menção para algo inesperado. Desaprovo com um sinal. Vejo névoa de tristeza nos olhos. Uma bela garota. Levemente maquiada, sem o requinte para uma noite enluarada de fim de abril. Penso: ao natural seu encanto destacaria.

Consentâneo à realidade de momento, num “beau geste”, alusão a filme de 39, estrelado por Gary Cooper, sem nenhuma ofensa, retiro da carteira algumas notas em dinheiro para ajustar-lhe uma boa ajuda. Àquela altura, útil a uma dama carente, menos até que o doador. E as entrego. Coração confrangido a outro. Olha-me fundamente nos olhos e pergunta-me se podia agradecer de algum modo. Entre comovido e gratificado, replico: “já o fez”.

Abro-lhe a porta do carro e me despeço: “obrigado, minha filha!” Em meio à penumbra, olha-me de frente. Lágrima furtiva mina de uns olhos castanho-escuros, cuja beleza se intensifica com réstia de luz acesa do interior do veículo. Espero-a entrar. Em seguida, dou partida e devagar enceto a volta para casa.

Indescritível a emoção da quebra de contrato com algo até então invencível. Mas asseguro: entrei e saí de uma situação incidental, sob forte e intrínseco impacto no campo da alta solidariedade humana. E mais: despojado do interesse mundano. Disso me dei conta quando acordei do sonho.

No ar do aposento, a magia estratificada na figura singular de uma dama, conhecida sob o luar no canto de uma praça, sob a fragrância de um perfume voltado para um suave talcado, o lendário Chanel Nº 22, Les Exclusifs De Chanel.

Encontro no desencontro, insidiosa quarentena a fórceps. Quando entrevejo um rio de paz a sorrir-me e passar rumo a oceânicas esperanças. O mundo pode ser melhor. No talvez, bem melhorado. Em especial, na companhia do outro, sem nenhum pudor de preestabelecidas verdades. E disso se pode atestar: fio tênue que separa devaneios do mundo real, acontecimentos certos e incertos, enriquecimento de tempos que se cruzam na vida de cada sonhador. A cada um o direito de sonhar.

 

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.