Opinião

Direita e Esquerda na democracia

Esdras Azarias de Campos

12 de junho de 2021

Existe um propósito político muito claro hoje no Brasil em afirmar que existe uma polarização entre extrema direita versus estrema esquerda. Este discurso tem como objetivo mais que óbvio desestabilizar a democracia e quem perderá com isso? É o que veremos mais à frente. Antes de aprofundar esta análise, vamos entender de uma vez por todas o que seriam estas duas vertentes políticas ditas extremadas. Não vou fazer um histórico detalhado destas duas forças políticas que vêm se digladiando pelo poder na política desde a Revolução Francesa de 1789. E nem tampouco das revoluções socialistas do século XX. Tudo isto é passado que ainda exerce grande influência no presente, mas cujos fatos oferecem todo tipo de experiências positivas e negativas, muitas das quais são aproveitadas pelas sociedades modernas. Entre as positivas estão as adoções dos processos democráticos e também das lutas sociais para melhoria das leis de proteção ao trabalho e ao trabalhador. E entre as negativas estão os governos autoritários e suas ditaduras. E também a permanência da divisão política entre direita e esquerda que entraram de vez na história e para ficar. Até porque envolve em ambos os espectros políticos conteúdos ideológicos que na maioria dos casos são conflitantes e contraditórios entre si, ou seja, de um lado a tendência conservadora da direita em defesa da propriedade privada dos bens de produção e de um Estado protetor desses direitos em detrimento dos trabalhadores e assim, abriu historicamente uma profunda ruptura entre capital versus trabalho. Daí o surgimento do outro lado, uma nova esquerda a se insurgir contra tal estado de desigualdades sociais. Esta luta entre direita e esquerda pulou para a política partidária e até hoje prevalece aqui e ali de forma às vezes extremadas às vezes conciliadoras. Num processo democrático consistente a direita e esquerda convivem regularmente bem devido a alternância de governos entre estas duas forças através de eleições e do voto universal. Claro, que nem todos os países do mundo alcançaram este nível de convivência democrática. Os exemplos de democracias consistentes infelizmente são poucos, talvez não passem de umas vinte ou trinta nações entre os duzentos países do mundo. Infelizmente o Brasil se insere no contexto do vale da sombra e da morte das democracias inconsistentes. O nosso atual momento político expressa esta deplorável situação em que nos encontramos.

Nada evidencia o quanto a nossa democracia corre perigo como neste desgoverno Bolsonaro. Temos um presidente que não consegue conviver com o politicamente democrático e com o civilizado contraditório, ele não estudou história do Brasil e se estudou esqueceu. Ele não estudou política e se estudou escolheu o que há de pior para praticar. Bolsonaro necessita do que há de pior na política, o extremismo fundamentalista. Provoca o contraditório somente para poder retaliar, porque só consegue sobreviver com a discórdia, com ódio, rancor, mentiras, cinismo e assim poder destilar tudo isto contra inimigos que ele imagina sejam iguais a ele. Ele tem que provocar uma polarização nem que seja contra os que combatem a pandemia! Na ausência de extrema esquerda, Bolsonaro provoca polarizações com qualquer coisa, cria os famosos factóides, as fake-news nas redes sociais para ficar bem e manter seus seguidores inflamados a exigir que ele “faça o que acham que tem que fazer”. Ou seja, dar o golpe e instalar a ditadura. Para Bolsonaro, qualquer oposicionista é de esquerda, daí o vexame de se referir a notórios direitistas bilionários capitalistas do Brasil e do mundo como comunistas. Devido a sua formação estritamente autoritária não consegue governar a não ser com autoritarismo, ele necessita do poder absoluto para esconder a sua profunda inépcia com administração e gestão da coisa pública. Daí se cercou de militares na presidência, formou ministérios paralelos, gabinetes das sombras e outros expedientes para desgovernar por ele. E assim ele fica por aí gastando todo o seu tempo dando rolês pelo país ora de moto, cavalo, Jet Sky ou fazendo lives para manter sua fama de mito para os seus felizes seguidores. Felizes diante dos mais de 470 mil mortos pela pandemia. Não nos iludamos, Bolsonaro nem esconde mais seu projeto prioritário, talvez único que é dar o golpe final. Ele testa a paciência das Forças Armadas todos os dias, de forma a desmoralizá-las para provocar uma reação contrária ou então ter certeza de que poderá contar com os militares para alcançar o seu propósito nefasto. Eis aí, para onde caminha a nossa história recorrente, Brasil Déjà vu!