Opinião

Democracia, que bicho é esse?

Por Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

15 de março de 2021

Os brasileiros em geral têm dificuldade em entender o significado de determinadas coisas. Uma delas, e diretamente lhes diz respeito é a democracia. Afinal, democracia: que bicho é esse? Não vamos fazer desse texto um tratado ou exposição didática. O espaço é curto, a preguiça mental é um mal do qual não podemos nos abster. E o melhor é partir para o sistema sem exercícios mentais prévios e desnecessários.

O que melhor sintetiza a democracia, segundo estudos feitos ao longo do tempo, é atribuído ao presidente estadunidense Abraham Lincoln, quando certa feita disse em Gettyburg, ele que acreditava em um novo nascimento de liberdade para trazer igualdade entre todos os cidadãos. Os políticos falam bonito: poder igualitário. E enchem bolsos, bolsas, cuecas, ceroulas, ao som de samba-canção desafinado; de dinheiro que deveria ser repassado ao povo e não acontece. Que povo?

O mesmo povo de que falava Lincoln. No seu conceito de democracia, o presidente assassinado também queria o bem-estar da coletividade em defesa das minorias contra a tirania da maioria. Tanto que a inflexão política pegou e é lícito admitir o que disse o também ex-advogado que se tornou presidente da maior nação mundial: “Governo do povo, pelo povo, para o povo”. Pronto: matou a pau.

O dito pelo bendito, Lincoln, ele que um dia labutou como balconista de loja, reiterou a defesa pelos oprimidos no sentido amplo (latu sensu), na extensão daquilo que poderia ser visto como filosofia de vida com caráter político. Porque se ficar tão-somente na doutrina, o discurso acabaria por se tornar em água de barrela, termo em desuso e antigo, mas que vem a calhar no sentido de imprestável.

E o motivo da citação desse discurso de Gettysburg não é a esmo, sem rumo. Trata-se, sem dúvida, de um momento histórico. No contexto envolvendo pouco mais de 260 palavras, o considerado maior presidente que a nação dos Estados Unidos já teve, Abraham Lincoln mostrou ao mundo, num período conturbado, na ocasião estava-se na vigência da Guerra de Secessão (1861/1865), que era igualmente um tanto quanto visionário, tipo John Lennon.

As pessoas podiam ser iguais, ainda que nas desigualdades. Mesmo em situações aflitivas, mesmo nas dificuldades.
Sérgio Buarque de Holanda, autor da antológica obra Raízes do Brasil, pai de Chico Buarque, poderia discordar desse entendimento, do que vem a ser democracia no seu sentido amplo e não restrito. Tampouco justificaria o texto. É a questão do governo “para” o povo.

Mas aqui está o pensamento lançado em terras genéricas, frívolo e não idiota. Simples e não simplório. As ambiguidades existem. No dizer da maioria, democracia é um regime de governo onde o poder de tomar decisões políticas deve estar com o povo, com os cidadãos e não na mão de alguns poucos. A democracia direta que diz respeito ao voto direto e a democracia indireta representativa, a qual tem a ver com a eleição de representantes em favor ou em nome dos eleitores.

As linhas mestras que traduzem o nosso povo são tão tradicionais e explicam um caráter aparentemente não ideológico. O que se quer e pretende é tão elementar e o que se deseja é de fácil entendimento: um mundo de paz, rústico, sem complicação, tranquilo, familiar, sem nenhuma convulsão, seja de qualquer forma.

Há muito não se elegem representantes políticos às câmaras federais e estaduais em benefício de comunidades nas quais se centralizam interesses de microrregiões. Sempre as mesmas. Não é falta de nomes, dinheiro, agremiação política ou fatores correlatos. Nada disso.

Por ventura, existem autênticos líderes, nomes que ao sabor de todas as estações do ano dispõem do cheiro do povo durante todo o tempo de suas vidas em nível de sacerdócio, ou seja, preocupam-se com o que os cidadãos da sagrada terra estão sentindo ou passando?

Não há necessidade de falsear as análises críticas. Nem é preciso buscar respostas no berço esplêndido da democracia, sob a égide de Sócrates, Platão e Aristóteles, período áureo da filosofia grega, onde realmente se respirava o sentido das escolas acadêmicas e de tudo o que é de direito.

Os resultados não são contraditórios. São tão tradicionais como o cafezinho que se toma no rabo do fogão a lenha. Quem souber atiçar a lenha no coração dos eleitores e justificar sua procuração em branco como se fora um poema de configuração poética e regular, lirismo puro, não há dúvida de que terá sucesso nas urnas das emoções populares.

Não demora muito a sociedade há de vivenciar fortes e acirradas disputas eleitorais. Haverá os que aspiram a algum cargo eletivo e obterão sucesso. Outros ficarão a suspirar pela não observância das sensibilidades sociais do seu povo e do seu tempo. Não é só o cheiro da terra e da chuva que contam. A do povo tem tudo a ver. A propósito, onde estão os líderes de que tanto precisamos? Escafederam-se. Não há. Aprendi em definição, desde há muito, que um líder “é aquela pessoa cujas ações e palavras exercem influencia sobre o pensamento e comportamento de outras”.

E normalmente fazem para o bem. O líder tem a habilidade de motivar e comandar um grupo, a fim de atingir objetivos. Quando se pergunta nessa fase difícil pela qual passamos: Cadê nossas lideranças positivas para o enfrentamento corajoso da pandemia? Brasil supera, pelo terceiro dia consecutivo, a casa dos 2.000 óbitos diários.

Por que motivo nossos representantes legais não aviaram recursos suficientes em busca de imunizantes satisfatórios a fazer oposição a essa guerra biológica que é o Coronavírus? São perguntas sem resposta. No infortúnio, vidas de irmãos brasileiros são ceifadas por ingerência e incompetência político-administrativa.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.