Opinião

Democracia e as Repúblicas das bananas

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

21 de agosto de 2021

Após 36 anos do fim de uma ditadura, o povo brasileiro está novamente diante uma grave ameaça de cair em um novo ciclo autoritário. Aqui pelos lados da América Latina as democracias são muito instáveis e sujeitas a golpes de Estado e instalação de ditaduras num piscar de olhos.

Daí que surgiu a nossa fama de “Republiquetas das Bananas”, que teve origem nos países caribenhos onde a economia básica depende da produção e exportação de bananas. E por coincidência ou não tais países bananeiros possuem a característica de resolver qualquer instabilidade política com golpes e ditaduras.

Esta situação de instabilidade política, no entanto, deixou de ser primazia dos países bananeiros e se espalhou por toda a América Latina. São centenas de ditaduras instaladas aqui na América do Sul no século XX até hoje. Em todos os países desde a Argentina no extremo sul do continente até aos países Andinos todos sem exceção passaram por regimes autoritários, alguns países até por dezenas de ditaduras como é o caso da Colômbia.

A República brasileira começou com ditadura nos governos de dois militares, Marechal Deodoro da Fonseca e Marechal Floriano Peixoto de 1889 a 1994. De 1994 a 1930 apesar deste período não ser caracterizado como ditatorial, porém apresentou um processo político de mando das oligarquias estaduais, o chamado “Coronelismo” onde os chefes políticos locais exerciam tal poder de controle da população, de tal forma a forçá-la a votar nos candidatos de suas preferências e interesses.

As eleições eram com o tal “voto de cabresto” que era o voto impresso e auditável daqueles tempos sombrios. Este longo período histórico foi registrado como “República Velha” também conhecida como “Política do Café com Leite” devido ao domínio da política nacional por políticos de dois Estados, Minas Gerais e São Paulo, de onde saiam os candidatos à presidência alternadamente a cada eleição. Aí veio a ditadura Vargas de 1930 a 1945 e dezenove anos depois a ditadura Civil-Militar de 1964 a 1985.

Pelo contexto histórico acima descrito dá para tirar algumas lições ou conclusões aterradoras, a primeira delas é que se governos autoritários e ditaduras fossem realmente eficazes, era para o Brasil estar em outro patamar em matéria de desenvolvimento social e econômico, um país de primeiro mundo.

Outra conclusão frustrante, de 1889 para os dias atuais a nação passou por dois hiatos democráticos, ambos com perspectivas otimistas com muita esperança de consolidação de uma política moderna progressista e, sobretudo, também de crescimento político e social do povo brasileiro. Mas aí, como tudo que é bom dura pouco em se tratando de política e tudo mais no Brasil, eis que surge o medo de ousar em avançar na democracia. Isto porque quanto mais avança o processo democrático, mais claro fica que não tem como praticar democracia com povo pobre, pouco escolarizado, sem direitos necessários para uma existência digna, enfim democracia pressupõe melhor distribuição de renda e de políticas públicas almejando o bem estar social de toda a população.

E aqui que surgem os temores da nossa elite, da classe média alta, das corporações privadas econômico-financeiras, do corporativismo das nossas instituições públicas tais como Congresso Nacional, Forças Armadas, Judiciário, enfim tudo junto e misturado, mas todos com medo de perderem seus seculares privilégios diante de qualquer instabilidade política.

Esta é a perfeita definição e caracterização de uma República das bananas, ou seja, evitar o avanço da democracia para manutenção do status quo apelando para ditaduras. No português claro, não se mexe em time que está ganhando, só que o time que está ganhando no Brasil é formado por pouco mais de 10% da população!

Tudo que estamos vivenciando neste desgoverno Bolsonaro é para potencializar a instabilidade política com claro objetivo de instalar uma ditadura, tudo isto confirma que não superamos nosso complexo de republiqueta das bananas. Então, vamos mudar aquele versículo tão citado da boca para fora pelo presidente de motociata para este: “Conhecereis a história do seu país e a história vos libertará”! Tenho dito.