Opinião

Da ponta da agulha à nuvem

Alexandre Marino

18 de junho de 2021

Em seus tempos de solteiro, meu pai foi um seresteiro admirado pela boemia passense. Embora nunca tenha tocado um instrumento, era um cantor afinadíssimo, de bela voz, frequentador das rodas de cantorias nas madrugadas de Passos – e de outras cidades por onde andou. Ao casar-se, em 1955, ele reuniu aos bens da família uma coleção de discos de goma-laca, que guardavam canções que amava, gravadas por cantores de voz poderosa. Seu preferido era Orlando Silva, intérprete de uma das mais belas obras da MPB, “Sertaneja”, composta por René Bittencourt e lançada em 1939. Inúmeras vezes ouvi meu pai cantá-la, bem ao estilo de Orlando Silva, e eu já morava em Brasília quando ele a gravou numa fita cassete, à capela, e me enviou. Foi um dos mais belos presentes que me deu.

Os discos de goma-laca eram pesados, frágeis e se quebravam facilmente. Com diâmetro de 25 centímetros, ganharam mercado nos primeiros anos do século passado e veicularam grandes sucessos musicais até que, no Brasil, foram substituídos na década de 1960 pelos long-playings (LPs) de vinil. Foi um salto tecnológico. Os discos de goma-laca, girando a 78 rotações por minuto, comportavam apenas três minutos de gravação de cada lado, enquanto os vinis, com velocidade de 33 rpm e sulcos mais finos, veiculavam 10 a 12 músicas no total. Os vinis deram origem ao conceito de álbum, porque os artistas passaram a selecionar o repertório para gravar a partir de uma ideia em comum.

Minha vida de melômano começou já na era dos vinis; mas ainda criança, antes que meu pai me permitisse mexer na vitrola, eu já me escondia no fundo do quintal com uma violinha de plástico para cantar canções que inventava. Ao contrário de meu pai, nunca aprendi a cantar, mas dele herdei esse paixão pela música, que me levou a percorrer sebos empoeirados em busca de um disco raro e a passar horas em filas, pessoal ou virtualmente, na busca de ingresso para um show.

Ouvir um vinil era – e é – um ritual. Começava pelo ato de comprar o disco, às vezes depois de procurá-lo durante meses. Quase sempre a audição era dividida com amigos, e muitas vezes as amizades se estabeleciam a partir de afinidades musicais. O disco era ouvido inúmeras vezes, de tal forma que se tornou comum a expressão “furar o disco”, devido ao mecanismo analógico por meio do qual uma agulha capta o som gravado nos sulcos, enquanto o disco gira, e o transmite para a amplificação.

Os vinis eram embalados em capas atraentes, às vezes verdadeiras obras de arte gráfica, que traziam informações sobre o artista e as canções, nomes dos autores e dos músicos que participaram das gravações, letras, fotos, etc. Ouvir um disco significava não apenas decorar as músicas, mas saber, por exemplo, quem fazia aquele solo de guitarra.

Os discos de vinil estão de volta à moda e ao mercado, mas naqueles anos 1970, quando a MPB e o rock viveram seu ápice, com uma profusão de artistas geniais, havia uma diferença radical. Para ouvir música ou animar uma festa, os discos eram a única alternativa. Não havia streaming, pen-drive, smartphone. Os CDs só chegaram nos anos 1990, mas a velocidade da tecnologia logo os levou à decadência. Os CDs também eram, como os vinis, objetos sagrados que veiculavam um conjunto de canções e tudo que lhes dizia respeito.

Com a internet, qualquer música, de qualquer lugar do mundo, está disponível nas redes de streaming. O suporte físico desapareceu, e com ele todas aquelas informações que complementam o ritual de ouvir música. Mudaram o sentido e a forma desse ritual. A experiência, antes compartilhada, tornou-se solitária.

Mas o fascínio da música permanece. E pode levar a experiências marcantes, como aconteceu com meu sobrinho-neto Pepê, que aos cinco anos, depois de se encantar com a descoberta de uma máquina de escrever, foi apresentado a um toca-discos de vinil. O primeiro grande momento foi quando a agulha pousou sobre o disco a girar, e o som do rock´n´roll tomou conta da sala. O segundo foi no final do disco, quando o braço se ergueu sozinho e voltou ao suporte, sem a interferência de ninguém. Pura magia.