Opinião

Contentar-se com pouco

18 de Maio de 2020

Numa reunião de cúpula entre notáveis, o centro da questão era a importância do poder da riqueza e da influência política na vida das pessoas. Queriam avaliar o que na verdade podia contribuir para a felicidade do homem na terra. Se a influência política, o poder da riqueza, ou os dois fatores juntos.Um modesto assessor, também indagado, depois de ponderar, respondeu:

– No meu entender, ambas as situações são propícias e favoráveis se utilizadas para o bem comum.

Caso contrário, de que adianta ao homem ser rico e abastado se o outro nada tiver? – E foi adiante: – “E se o homem, por igual, de muita influência no mundo da política e da fama, não for e não estiver devotado à prática da generosidade, imbuído da política social da distribuição e redistribuição da renda e da riqueza, em que prosperará o seu agir e pensar?

E concluiu:  – “Nos mencionados casos, imprescindível se opere o milagre substancial do bem no princípio do razoável e, positivamente, no favorecimento da política organizacional correta, na condição primordial de servir ao próximo. É básico e fundamental”.

Ouvidos e consultados, a posteriori, os membros plenipotenciários da riqueza e da alta política, um a um, foram se distanciando e se retirando do grupo, declinando-se do debate, do tema e da enquete.

Uns falando que as esposas estavam chamando para o estrito cumprimento do dever conjugal, que é muito legal; outros tinham que acompanhar uma retificação de área na Patagônia a pedido do vizinho do primo-irmão de Augusto Pinochet. E, outros, ainda, alegando enxaqueca pós-distúrbio amarelão provindo da China de muitos morcegos em noites de lua cheia. Assim, vazaram de quinta em subida íngreme de difícil acesso na Terra de São Nunca. Aonde se pode chegar?

Sem muita ciência introdutória por falta de consistência no jogo da cordialidade para insólitos momentos, à análise. De pouco adianta um indivíduo ser rico e poderoso no mundo dos negócios e da política, se ao seu redor um irmão estiver na condição de pobre, carente e necessitado. Não se trata de aventar a noção ou intermediação da capacidade humana da esfera da empatia social e econômica. Na essência, o mundo e seus viventes devem ser vistos pelos quadrantes da geografia física, humana e técnica.

Fácil de explicar, sem a necessidade de se aplicar equações, como o teorema de Pitágoras, que, em tempos de outrora, e não menos importante no agora, fala que a “soma dos quadrados de seus catetos corresponde ao quadrado da sua hipotenusa”.

Tais componentes empíricos e filosóficos agregados, na eficiência de valor, na metodologia do jogo da sedução, estão como a pretender a conquista da mulher de delirantes sonhos, dando-se ao pretendente sedutor o desplante de homenagear a beleza da pretendida com um lindo poema de Fernando Pessoa em javanês. Ou seja, o efeito será próximo de zero.

Para tristeza de temáticas doutrinárias, o mundo da desigualdade vai continuar incomodando no topo da pirâmide social, valendo dizer: ricos cada vez mais ricos; pobres cada vez mais pobres. E na faixa adicional ao largo, ignaros na casa de acentuada ascendência. Cada vez mais ignaros, por conveniência de política institucional. O que não deixa de ser danoso à sociedade em que vivem. Menos participativos, no senso comum, para fim de não ‘incomodação’. Enfim, c’est la même chose!

No histórico do mundo amargo e cruel, isso é janela e horizonte a quem é de sensibilidade humana no plano das ideias e observações. Quem não estiver nessa condição, aí, então, é caso para morador da Ilha do Diabo, alusão ao ente sempre incomodado do porquê de mandingas não surtirem efeito em sepulturas de devotados membros do movimento evangélico de definidas crenças, mui especialmente após o século XVI.

Na lembrança, a Penitenciária Federal de Alcatraz, nos Estados Unidos. Para quem não se sustenta na história – de 1934 a 1963 –, a prisão localizada na Ilha de Alcatraz foi considerada uma das mais seguras do mundo. Há quem diga que o lendário gângster Al Capone, número “um” dos facínoras, tenha passado por lá. O próprio. Ele que se dizia honesto, bom chefe de família, homem de negócios. No entanto, a sangue frio, matava sem dó nem piedade.

Corpulento, não arredava pé de uma briga. Início de vida, cão de guarda, adquiriu ferimentos na face. E passou a ser conhecido como ‘Scarface’, o que lhe rendeu notoriedade antes e depois da morte. Al Pacino e Michele Pfeiffer que o digam. Scarface, película de 1983, sucesso de bilheteria.
Em 1931, o agente do Tesouro Federal, Eliot Ness, prendeu Al Capone por crime de evasão fiscal. ]

Isso mesmo: um livro de contabilidade o levou a conhecer a extinta prisão de Alcatraz. Não pela quantidade de mortes cometidas, dentre as quais seus rivais, com destaque quando da Lei Seca nos Estados Unidos.

Por bons anos ficou na prisão, também conhecida como ‘A Rocha’. Não ocorre a ninguém de bom senso nela entrar e tentar sair nem em tenebrosos e pandêmicos pesadelos.

No sempre preferível, uma vida pacata, sem luxo e nem ostentação. Mesmo porque, a essa altura do campeonato, sobreviver nesse emaranhado de loucuras e incertezas já é garantia de lucro, a fazer inveja aos mais ricos e potentados homens do mundo empresarial e político. E aprender a enxergar o mundo de maneira diferente e promissora é uma prática desafiadora para todo ser humano dotado de pensamento linear.

Mudando de pato para ganso, o cientista político Francis Fukuyama, professor da Stanford University, em meio a crises ideológicas no início dos anos 90, nos deixou mensagem acerca do mundo que, se Deus permitir, teremos ainda mais acidamente pela frente: “Desenvolva as habilidades necessárias em um mundo em que parte do que faremos será substituído pela Inteligência Artificial”. (“O Fim da História e o Último Homem”, 1990)

Quem diria. Lições que podemos extrair com a pandemia do Coronavírus dizem respeito ao isolamento social, com as mudanças de comportamento e valores: a) aprender a valorizar a própria companhia; b) dar novos ares à dinâmica social, como o querer bem ao próximo de maneira efetiva; e, c) estamos, de fato, nivelados e imersos numa mesma bruma cinzenta, mas convencidos de que, a exemplo de outros males de outros tempos, vamos vencer mais esse mal. Quem viver verá!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.