Opinião

Chamem o Dr. Simão Bacamarte

30 de abril de 2020

Sim. Nada melhor do que o Dr. Simão Bacamarte para dar jeito nessa imensa nuvem de conflitos, logo num momento em que as atenções deveriam estar integralmente na solução das gravíssimas crises sanitárias e econômicas que já nos atingem em cheio.

O fato é que a nossa pandemia acabou se transformando em autênticos pandemônios político e jurídico, cujos efeitos nos envolvem de forma meio que descontrolada. Parece que estamos numa barco à deriva, somente à espera de novas polêmicas que emanam do governo, mas com vastos reflexos na população.

Desta vez, após a saída de Sérgio Moro, cheguei a pensar que, enquanto Bolsonaro ocupar a Presidência da República, não teremos o equilíbrio suficiente para atravessar mares tão revoltos, ainda que se devam levar em conta seus poderes para nomear, demitir e dirigir o governo, no âmbito de suas prerrogativas legais e constitucionais.

Cabe agora ao STF e ao Congresso resolver as pendências trazidas à luz tanto por Sérgio Moro, quanto por Jair Bolsonaro, mas fica difícil imaginar como o Brasil suportaria, por exemplo, um impeachment ou a abertura de processo comum contra o presidente no instante em que as instituições precisam se ater às emergências da pandemia acima de tudo.

Foi em meio a este oceano de turbulências e movido pela fuga momentânea do pântano das discussões políticas e jurídicas, que pensei no Dr. Simão Bacamarte. Para quem não se lembra, a eminente figura representa um dos personagens célebres de Machado de Assis, que, como se sabe, foi excepcional observador da conduta humana.

O médico Simão Bacamarte surgiu em um de seus contos mais famosos, “O Alienista”, que, por sua estrutura um pouco maior em termos de páginas e personagens, alguns críticos preferem tratar como novela.

Ele vivia numa pequena cidade de nome Itaguaí e, em virtude de sua devoção pela ciência, resolveu estudar a fundo a mente humana. Para tanto, obteve apoio político para a criação da Casa Verde, que seria um tipo de asilo ou casa de repouso em que ele poderia internar quem quer que fosse para empreender seus estudos sobre as patologias cerebrais.

Poucos dias após, a tal Casa Verde já contava com inúmeros pacientes, por mínimos que fossem os seus sintomas de eventual insanidade. Uma pequena mania, falha ou vício se tornavam suficientes para confinar alguém. “De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação.” (pag. 7)

Não me cabe contar o final da história, mas, enquanto as internações na Casa Verde só faziam crescer, natural que ocorressem resistências à iniciativa do Dr. Bacamarte. O terror de uma captura por quaisquer atos considerados afrontosos aos níveis de sanidade atingia os moradores de Itaguaí. Quem seria o próximo? Eis o pensamento que gerava pânico.

Diga-se, então, que um líder popular, o barbeiro Porfírio, comandou a revolta e apareceu, por isso, como grande líder político para dar fim àquele internato e fazer voltar a vida à rotina. Em razão da insurreição, houve consequências mais surpreendentes ainda, que culminaram com um esplêndido desfecho, bem ao molde do talento de Machado de Assis. É pregar os olhos na obra e não largar até o fim.

Lembrei-me de sua célebre criação porque o panorama que estamos vivendo seria, por certo, bastante propício aos estudos do Dr. Simão Bacamarte. Não lhe faltariam tipos com vários sintomas patológicos para suas análises, dentre os quais podem se incluir os mais altos mandatários do Brasil, os mais devotos de seus defensores, os mais contundentes de seus críticos e os oportunistas de sempre, que agora tentam ocultar suas máculas nos currículos.

Exemplos nos mundos político, comum e digital não nos faltam. Observem.

O cardápio de ideias fixas, paixões desmedidas por políticos, fluxos de conspirações, obsessões, paranoias e traições, veiculadores de fake News, delirantes saudosos da ditadura, toda a sorte de agressões verbais no Twitter, Facebook, WhatsApp, com seu todo o rol de palpites que extrapolam os níveis de conhecimento dos palpiteiros estariam ao dispor dos estudos do Dr. Simão Bacamarte. Ele ia vibrar.

Talvez viéssemos a precisar de uma Casa Verde em forma de um imenso Sanatório Geral da República para abrigar tanta gente.

Aproveitem, pois, para ler ou reler “O Alienista” enquanto os tambores das polêmicas prosseguem seu curso. No decorrer de suas 26 páginas, Machado, além de ressaltar, por intermédio de sua fina ironia, as fragilidades das linhas divisórias entre loucura e sanidade, avança para as questões políticas da pequena Itajaí, que bem se encaixam nos grandes dramas que agora vêm comandando nossas atenções.

Sob o microcosmo daquele vilarejo, em narrativa da segunda metade do século XIX, diga-se ainda que estão presentes, de forma alegórica, as zonas de tensão entre poder público e ciência, algo, da mesma forma, bastante atual, não?

A literatura não tem preço. As artes não têm preço.