Opinião

Cem dias, sem planos

POR GILBERTO ALMEIDA

24 de abril de 2021

Os políticos precisam mudar a cara, a ideias, a vontade, os objetivos. Precisam ter transparência, agilidade e comprometimento com a sociedade”. – Dias Diogo. Passados 100 dias do novo governo municipal, quero aqui declarar a indulgência que todos devemos dedicar ao Prefeito, pela fase de adaptação e, sinceramente espero, período de adquirir capacidade de governar. Entretanto, essa necessária comiseração não significa deixar e analisar a atuação do governo, o que não pode interpretado como crítica raivosa e precipitada ou mesmo “falas facciosas“.

Em primeiro lugar, e sem querer cobrar grandes realizações em pouco mais de três meses, é preciso registrar que a atitude do governo desde o seu início e de forma diferente do discurso de campanha, foi a de consolidar a mastodôntica e onerosa máquina administrativa, mantendo a nomeação de mais de uma centena de cargos comissionados, assim como os enormes gastos com a terceirização de mão de obra.

Somente isto já se torna o maior de todos os desalentos, porque é sabido por todos que o governo municipal dificilmente terá capacidade de investimento sem racionalizar a sua maior despesa que é a destinada a pagamento de pessoal e mão de obra. Sem investimentos próprios, resta correr atras e com pires na mão, de convênios com outras esferas de governo que também se encontram com os cofres vazios. Reforma administrativa foi outro pilar de campanha e sobre isto nada foi divulgado, ao contrário, o governo mergulhou na agradável farra de nomeações, incluindo aí grupos familiares e indicações de outros poderes.

Se a pandemia se tornou um mal que assola a todos, incluindo aí as administrações públicas, a atuação oficial em Passos também foi insuficiente, em um vai e vem de decisões mal explicadas e esdrúxulas. Penalizou as atividades econômicas de Passos, sem conseguir efetividade alguma na fiscalização das aglomerações presentes em “festinhas”, ônibus lotados e filas sem protocolos sanitários em entidades financeiras. A bem da verdade, é mais fácil decretar um lock down mais rigoroso que a onda roxa, do que investir e dar condições para que a fiscalização e as brigadas atuem com resultados.

Com exceção do Secretário de Agricultura Nenê da Manoela que, em que pese as dificuldades naturais, tem feito um bom trabalho e com interação com os produtores, o Prefeito aparenta estar perdido e sem rumo e as demais secretarias se apresentam ainda ineptas, até porque não conseguem instrumentos para trabalhar, pois o governo sequer conseguiu fazer licitações importantes em seus 100 dias. Algumas secretarias geram polêmicas, por exemplo, com o sumiço do Secretário de Industria Comércio para dialogar com os manifestantes do comércio e com a Assistência Social entendendo, de forma canhestra, que o problema das pessoas em situação de rua é “problema de segurança pública”.

Outro ponto a observar é o extraordinário desentrosamento da equipe de governo, ao anunciar, isoladamente, a atuação de algumas secretarias nos 100 dias, aparentando dizer, “não fizeram, mas eu fiz”. Outra mostra da falta de sinergia da equipe foi demonstrada na entrevista do Secretário de Industria e comércio, Dr Sandro Marques, ao programa Cara a Cara com Isabel Pereira na Web TV OK, onde as propostas de campanha foram solenemente ignoradas.

Ali foi prometido um faraônico Centro de Convenções, sem pensar que antes de investir milhões, poderia medir o mercado, usando o prédio do CPN ou mesmo da Câmara Municipal, e por outra monta, o ilustre secretário parece ter, tomara que somente na entrevista, se esquecido do distrito industrial de 100 hectares e do projeto de capacitação de mão de obra, que como outros pontos, foram tão decantados na campanha eleitoral do atual alcaide. Ainda nesta entrevista, me assombrei com discretas críticas do Secretário, como se não fosse parte do governo e considerado o mais forte secretário junto ao chefe do executivo, atacando o fechamento do comércio praticado e a realização da infeliz “carreata da covid”.

Agora, estamos há 120 dias do envio ao Legislativo do Plano Plurianual, cuja elaboração não pode conter as demências ocorridas quando da LDO, já apontadas nesta coluna. O Plano Plurianual deve apresentar, dentro das previsões orçamentárias, o plano de governo para os próximos anos e com discussão com a comunidade. Sempre há tempo de corrigir rumos e há de se esperar que o Dr Diego harmonize sua equipe em um plano verdadeiro e prático, para que o planejamento deixe de ser apenas uma obrigação legal, mas contenha os programas ações e objetivos do governo dentro das diretrizes estabelecidas, com audiências públicas bem realizadas, quando o povo poderá se manifestar.

E, por fim, é preciso que o governo compreenda que é sua obrigação dar satisfações de seus atos à população, não somente fazendo empoladas “lives” nas redes sociais, felizmente pouco frequentes nos últimos tempos, mas sim dando explicações, com transparência, sobre suas decisões. Para ilustrar esta necessidade, fica aqui a pergunta: qual a justificativa para permitir a realização festas privadas, noite adentro, apenas com a limitação de 30 pessoas, enquanto os bares da cidade devem fechar às 22 horas?

Os donos dos bares espalhados pela cidade, não conseguem compreender o que acontece e não conseguem do Prefeito ou de seu Secretário, nenhuma justificativa. A transparência é uma obrigação de quem prometeu ética e não pode se contentar em publicar complexos relatórios contábeis, mas deve fazer a cidade conhecer os reais motivos para todas as tomadas de decisão dos gestores.

GILBERTO ALMEIDA é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.