Opinião

As longas pernas da mentira

Alexandre Marino

24 de setembro de 2021

Quando eu era menino, ia direto para o castigo se contasse qualquer mentira à minha mãe. O pavor do castigo só não era menor que o pavor do olhar em chamas do meu pai, intensificado pelo gesto de retirar o cinto da calça. A memória das punições ocupou a minha mente desde criança, por isso nunca fui bom em mentir, nas ocasiões em que fiz atrapalhadas tentativas. Entre meus amigos de infância ou adolescência, havia os mais ou menos mentirosos, mas em geral as mentiras eram inocentes, sem consequências graves.

Ainda adolescente eu já era atraído pelo jornalismo, profissão cuja essência é a apuração dos fatos de forma a se chegar o mais perto possível da verdade. A verdade, ao contrário da mentira, é um conceito complexo. É rica em nuances e pode confundir os desavisados. Já a mentira é facilmente produzida e se espalha com velocidade. Quando eu era menino, dizia-se que a mentira tem pernas curtas. Com as redes sociais, as pernas cresceram.

Nas últimas eleições para a Presidência da República, um candidato chamou a atenção ao se apresentar como representante de uma suposta nova política. Os eleitores acreditaram. Foi a primeira mentira. O indivíduo em questão foi deputado federal por 27 anos, e sempre praticou a chamada “velha política”, aproveitando-se dos privilégios do mandato para formar parte de seu eleitorado e compor seu patrimônio às custas de pouco trabalho. Ele nunca apresentou qualquer proposição de real interesse do país – por que agora queria ser presidente?

Foi eleito com o discurso do combate à corrupção, como todos fazem. Empossado, inventou que em seu governo esse mal acabou, e ajudou a desmantelar os mecanismos anticorrupção. Enquanto seus familiares praticam falcatruas à vontade, ele desvia recursos do governo para comprar a fidelidade de parlamentares de aluguel. O nepotismo, que também é corrupção, rola solto. Embora não tenha conseguido emplacar um de seus filhos como embaixador nos Estados Unidos – seria uma mentira de enormes proporções – ele abriu a porta do Palácio do Planalto para sua família. Um de seus filhos e assessores mais próximos é vereador no Rio de Janeiro, mas presta serviço na Presidência.

Enquanto garante proteger a Amazônia, ele revoga toda a legislação de proteção ambiental e de fiscalização, abrindo a floresta para a invasão de garimpeiros, madeireiros e seus aliados do agronegócio. Para intimidar os povos indígenas, liberou a venda de armas para os fazendeiros e os estimulou a atirar para matar. Nomeou para ministro do Meio Ambiente um empresário envolvido com a venda ilegal de madeira, que sempre trabalhou para impedir a fiscalização.

Sua maior bandeira desde o início da pandemia de Covid-19 foi estimular o uso de medicamentos comprovadamente inócuos. Não há mais discussão no mundo a respeito do “tratamento precoce”, mas ele insiste nessa mentira, a ponto de ser ridicularizado ao discursar na Assembleia Geral da ONU, nos Estados Unidos. Os péssimos índices do enfrentamento da doença o levaram a impedir o Ministério da Saúde a divulgar números, e hoje o país sabe o que acontece porque um consórcio de veículos de comunicação faz o levantamento dos dados com informações dos governos estaduais.

A inflação nunca esteve tão alta no Brasil desde o Plano Real, o desemprego e a fome aumentam, o país vive uma recessão, mas para o governo a situação está ótima. O ministro até popularizou a expressão “recuperação em V” o que significa a volta repentina do crescimento, e são frequentes os discursos para mostrar a recuperação econômica.

Investigado no Supremo Tribunal Federal pela disseminação de “fake news” (mentiras, em bom português), o presidente enviou ao Congresso uma Medida Provisória que criava novas regras para a moderação de conteúdos nas redes sociais, estabelecendo garantias aos usuários e dificultando a remoção de publicações mentirosas ou a suspensão de contas. O documento foi rejeitado por ser inconstitucional, mas uma semana depois ele enviou à Câmara um projeto de lei com o mesmo objetivo. A proposta é considerada um gesto do presidente a seus apoiadores mais radicais, que utilizam as redes para disseminar notícias falsas e promover ataques a instituições.

As mentiras dão resultado. No feriado de 7 de setembro, 140 passenses embarcaram em caravana para prestar apoio ao presidente numa manifestação em São Paulo.