Opinião

Aos trancos e barrancos

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

12 de julho de 2021

Peço ao amigo de longas datas que seja ainda mais meu amigo nesses dias. Vivemos em circunstâncias peculiares. Gostaria muito que fosse diferente. Cuido de explicar que as coisas andam difíceis, fora de prumo. A amizade, então, deve ser de grande valia nesses duros transes. Mortes a rodo. Políticas de nenhum engenho praticadas por entes que mais parecem birutas.

Isso de biruta deve-se ao equipamento para indicar a direção dos ventos. Muito usado em aviação. Comum nos aeroportos. Dão sentido e indicam o deslocamento do vento. Servem de guia para ajudar os pilotos durante as decolagens e aterrissagens. No que faz sentido. As manobras – seguindo e segundo os próprios equipamentos – realizam-se exatamente em sentido oposto. E pelo visto e ventos as pessoas estão indo de um lado a outro sem saber para onde. Quando nos vemos meio que perdidos. Precisados, e muito, de um norte para desnorteantes caminhos.

A verdade é que não estou só desorientado. Estou mesmo é desolado. Triste. Muito triste. A cada dia uma notícia amarga. Perdas humanas. Aproximamos dos 550 mil mortos. Amigos e conhecidos que se vão. Outros que se foram e só agora tomamos notícia. Existem também os na iminência de partirem, deixando-nos na expectativa do trágico.

E haja orações pedidas, sejam por almas perdidas, sejam pelos que estão na berlinda de permanecerem firmes na fé existencial. Querem porque querem ficar mais um pouco. Mas… Estamos todos precisados de força, muita força.

E percebo que estamos em julho. Muito frio. O frio da alma dói mais. E nada de chuva para enriquecer nossos recursos hídricos. Ouço falarem em planejamento hídrico e energético e de recuperação dos reservatórios. São siglas demais para poucos cuidados. Existe a Lei das Águas, a Política Nacional de Recursos hídricos de domínio federal. Quando constato que usam a água e dela fazem monopólio para infrutíferas retóricas. Brigas insanas de caráter político, o que mais enfeia e entristece ainda mais a amizade do amigo que tanto prezo e peço seja ainda mais amigo.

De repente, por normas estabelecidas pelos homens que fazem a gestão pública, a dura realidade. O mercado financeiro é pressionado pelos riscos políticos. CPI da Covid muito a ver com balaio de gatos. Quem é menos e mais?

E o dólar dispara. A alta dos combustíveis – vez mais – bate à porta. Quando vejo que a política não é feita para amadores. E a vida nunca foi apoteose para fogos de artifício. Pura insanidade. Há quem queira – não os blocos – botar os tanques nas ruas. Um presidente que não tira da cabeça a ideia de golpe. Coitado. Sabe que não aguenta. Segue o mesmo caminho de Donald Trump. Medo dos votos. Fala em fraude. Ele é a fraude. Onde já se viu!

Volta-se à crise hídrica. Por ensinamentos de há muito, o que aprendemos: “A Política Nacional de Recursos hídricos visa assegurar a disponibilidade de água de qualidade às gerações presentes e futuras, com utilização racional e integrada, especialmente contra as secas e enchentes, tanto no âmbito natural quanto decorrente do mau uso”.

Quando deixo Passos com sentido à Formiga, pela MG-050, não sei bem por que entro na Usina Hidrelétrica de Furnas. Na altura do JF, viro à direita, tomo o bairro Can Can (São José da Barra) sigo reto, margeando o tão devastado Rio Grande. Poucas almas buscando descontrair-se em locais antes muito frequentado. Hoje nem sombra do que foi.

E passo o Horto Florestal. Descerro o vidro do carro e aspiro fundo o ar da saudade. E deixo o peito do calendário ainda mais inflado. Lembro ter jogado no campo de futebol, logo à direita. Um passado tão doído quanto águas sofrivelmente inexistentes. Parecem descer aos trancos e barrancos.

Lembro ter lido nos jornais que o nível de Furnas continua abaixo da cota mínima, mesmo após a interferência de ANA, uma senhorita com requintes feudais, que atende por ‘Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico’.

Depois de atingir o posto de combustíveis e de serviços, sigo rumo à barragem. No caminho, vejo faixas e cartazes de “Fora Bolsonaro”, “Não à Privatização de Furnas”, “Furnas é Nossa’. Uma indignação contra a privatização da Eletrobrás. O que não entendo. Sinto-me mais submerso em conjecturas do que a cidade de Guapé, quando da construção da hidrelétrica de Furnas, nos anos 50.

Já na altura da barragem, nem há que aguardar o sinal verde. Pouco fluxo. Cumprido o gesto de saudação ao porteiro, a cancela é franqueada. Logo adiante, o costumeiro barulho do piso de rolamento. Olho à esquerda. Bem lá embaixo, como que minúsculas criaturas, diviso o que antes havia de visíveis trabalhadores. Tudo muito estranho no comparativo tempo e espaço. Melancólico silêncio. A sinistrose vem à tona. A de que querem privatizar a Usina Hidrelétrica de Furnas. Aliás, a Eletrobrás. “Furnas Nossa!” Na ocasião, a imagem é minha. Toda minha. O aparato das redes energéticas de um vasto ciclo no oculto. Há trabalhadores operando.

Se a hoje estatal é a maior da América Latina e apresentou lucros bilionários nos seus últimos balancetes, por que privatizar? Nem se entra na questão da beleza do Lago de Furnas. O conhecido “Lago de Furnas”, ou popularmente “Mar de Minas”, banha 34 cidades. Não sou bom nisso. A perspicácia óbvia aponta que privatizáveis são as empresas deficitárias, as que não dão lucro. Ou terei que rever conceitos científicos e matemáticos?

De fato passamos por crises hídricas. Os reservatórios de Furnas dizem sim. Então é buscar ajuda, planejamento e efetivações. Em São Pedro, primeiro. Nenhuma pilhéria. Pés firmes na terra, recorrer a quem é do ramo. A um Roque Gioacchino Piantino, ou, quem sabe, a Morvan Faria Brasileiro. Eles que estiveram no topo das linhas diretivas de Furnas. Sem essa de ‘General 3 estrelas’. Cascateiros, isso sim. Não sabem gerir coisa alguma. Quanto aos setores políticos, dose cavalar de juízo é o que falta.

Aspas para Larissa Costa e Rafaela Dotta, Brasil de Fato MG, 18/06/2021, elas intuíram: “Em maio de 2020, quando não existia a determinação da ANA, o nível estava em 763,7, enquanto agora está abaixo da cota 762 estabelecida”. Traduzindo: “O volume útil em maio do ano passado era de 66,90%, enquanto, atualmente, é de 38,32%”.

E dou mais asas à imaginação. Força, energia e luz. Penso nos peixes. Não os de agora. Inexistem em substância. Nos que Márcio Lemos Coelho, da Viação Rápido Sudoestino, década de 60, em sinal de apreço, levava para meu pai. Eram enormes. Não sei se Dourado, Pintado, Surubim, Jaú…

Se tiverem que privatizar Furnas e a Eletrobrás, não permito, de forma alguma, que me roubem as cenas, imagens, pensamentos, o saudosismo positivo. Não disponho de muito. Na Bolsa de Valores – por boas e novas ações – alio-me aos 12 mil trabalhadores contrários à venda da empresa.

De boa lembrança a atitude de quem nasceu no mar, a bordo de um navio de cabotagem e veio abrigar-se nas montanhas de Minas. Quando governador, para impedir a privatização de Furnas – 40% do abastecimento brasileiro – Itamar Franco “abriu guerra” contra Fernando Henrique Cardoso. Aqui, não, violão!

Quem se lembra do envio de 2500 policiais militares armados de fuzis e metralhadoras nas margens do lago formado por uma das barragens de Furnas? Pois é. Como também não tirem o brilho da admiração pelo trabalho do candango seresteiro de Diamantina. Um dia imaginou, criou e fundou uma bela cidade no cerrado. Tempos depois, do alto de um avião, pelo rádio, não lhe permitiram nela pousar.

Pode-se avaliar o desencanto de Juscelino Kubitschek, o idealizador e fundador de Brasília? Morreu mais de tristeza profunda do que propriamente de qualquer outro acidente. Coisas da vida. Também “como pode um peixe vivo viver fora d’água fria?
Como poderia viver? Com certeza, não.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, escreve aos domingos nesta coluna.