Opinião

Algo mais sobre Dostoiévski

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

8 de julho de 2021

O passar dos anos costuma trazer consigo outros olhares sobre muitas situações já vividas, inclusive no infinito terreno da literatura. Uma obra a que nos dedicamos em décadas anteriores sempre há de nos proporcionar uma visão além da que tivemos durante a primeira experiência. Há pouco realizei releituras de dois grandes clássicos, “O estrangeiro”, de Albert Camus, e ‘O último dia de um condenado”, de Victor Hugo, o que me gerou o impulso de publicar textos sobre ambos aqui neste espaço. O retorno me ampliou a noção da grandeza das duas obras.

Ainda envolvido com o extraordinário “A montanha mágica”, de Thomas Mann, veio-me ao pensamento um outro magnífico romance, que li há muitos anos – para ser preciso, na segunda metade de 1997 -, o clássico “Os irmãos Karamázov”, do gigante Dostoiévski.
Durante minha já vasta estrada no planeta dos livros, Dostoiévski sempre ocupou lugar de relevo. Ah! Esses russos! Como são intensos! Após várias obras dele, parti para alguns de seus parceiros de origem, como Tolstói, Nikolai Gógol, Vladimir Nabokov e Ivan Turguêniev. Um conduzindo ao outro. Travessias essenciais. Oportuno lembrar que a ficção literária se constrói com enredo e personagens marcantes, aspectos de que Dostoiévski e os russos, em geral, se desincumbem com brilhantismo.

Pois bem, quando eu estava tomado por “Os irmãos Karamázov”, a necessidade de compartilhar experiências de leitura já se fazia presente em mim. À época, com base em textos aleatórios, escrevi, cá na “Folha”, a respeito desse romance fenomenal, ao lado de considerações sobre as tormentosas circunstâncias históricas do próprio Dostoiévski, Não me restam dúvidas de que, hoje, tantos anos após, uma nova incursão às páginas de “Os irmãos Karamázov” me fizesse também enriquecer os olhares para a obra. Quem sabe, outra releitura à vista.

Por ora, no entanto, resta-me manter a fidelidade aos impactos originais, que já se fazem bem distantes, uma vez que aquele texto foi publicado, como “Carta do Leitor”, em 10 de fevereiro de 1998. Deixo-lhes, então, abaixo, alguns de seus poucos parágrafos, não sem o império das revisões, que acabam por induzir à alteração do estilo, da forma, das preferências de relato. Toda escrita significa um ato de reescrita.

Em ‘Os irmãos Karamazov’, um calhamaço de 590 páginas, o autor retrata a curiosa e dramática trajetória de três irmãos em suas relações com o pai, um velho egoísta e irresponsável. Cada um desses irmãos com o predomínio de diferentes traços psicológicos.
Observe-se que, também nesta obra, ocorre um homicídio, o que acaba por revelar o grande conhecimento jurídico de Dostoiévski no campo do direito penal. Tanto como em “Crime e Castigo”, há a presença de investigadores, procuradores de justiça, advogados e juízes.

Surge, assim, no transcurso dos episódios, o que se denomina, no Brasil, de tribunal do júri, com todas seus procedimentos relativos a interrogatórios das partes, oitiva de testemunhas e confrontos entre acusação e defesa, circunstâncias que representam um dos diversos clímax do romance, justo pelo intuito de esclarecer os motivos do homicídio tão bem articulado.

Torna-se evidente, mais uma vez, em Dostoiévski a profundidade dos detalhes, que resulta na genial articulação de fatos os mais distantes no enredo e sempre temperados por diálogos extraordinários, que tornam claro seu conhecimento da natureza humana. Cria personagens tão poderosos, que parece não haver espaço para mais nada em torno deles. Sem nenhum tipo de maniqueísmo, trazem em si a alegria e a tristeza, o bem e o mal, a glória e o fracasso, Deus e o diabo, tudo como faces inseparáveis de uma mesma moeda.

Ao lançar mão de acontecimentos aparentemente comuns, o autor avança para níveis de elevada consciência, pois elabora os fatos com o mais amplo alcance das interpretações dos próprios personagens, principalmente os três irmãos, que partem em obstinada busca das razões mais ocultas que os fazem agir desta ou daquela maneira.” Voltemos. São trechos apenas aptos a revelar o fascínio que eu já sentia por Dostoiévski na década de 90.

Muito tempo depois, escrevi outros dois textos sobre ele: em 2012, a respeito de “Memórias do subsolo”; em 2019, com foco em “O idiota”, que denominei de As personagens de Doistoiévski. Os grandes autores são inesgotáveis. Dostoiévski é inesgotável. No momento em que se comemoram os 200 anos de seu nascimento, reafirmo que tudo que ele escreveu parece ter mesmo o propósito de nos remeter aos aspectos de nossos labirintos existenciais, dos mais construtivos aos mais nocivos, dos mais filosóficos aos mais absurdos, dos mais perspicazes aos mais ridículos, dos mais lúcidos aos mais ordinários.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.