Opinião

Aldir Blanc, um gênio

11 de Maio de 2020

Morreu no Rio de Janeiro (04/05), aos 73 anos, vítima de complicações pela Covid-19, um dos mais importantes compositores do Brasil dos últimos tempos: o músico, cronista e poeta
Aldir Blanc.

Foto: Divulgação

Fecundo letrista, entre os maiores de que dispomos nas prateleiras do talento, compôs maravilhas em mais de 50 anos de carreira. Médico de formação na área da psiquiatria, largou a profissão para se dedicar inteiramente a compor letras, tendo dividido espaço singular com o cantor mineiro João Bosco, com quem fez profícua parceria, mediante ricas e belíssimas produções para acalentar e enternecer sentimentos através de canções de fino trato.

 

Sabe-se lá o que é produzir letras para um amigo e companheiro à distância, ao depois romper melodias para dignificantes vozes como de Elis Regina, Djavan, Simone, Gal Costa, entre tantas outras personalidades do mundo artístico?

Não é pouco. É muito. Da parceria com João Bosco 40 anos de cumplicidade melódica – nasceram as mais lindas canções para o deleite de adeptos da boa música, muitos dos quais, ainda que não apreendessem (captassem) a letra na profundidade poética, ainda assim gostavam e aplaudiam as canções, como que numa anuência respeitosa ao talento de quem sabe fazer poesia com letras que bolem com o imaginário e a sensibilidade.

E comigo foi assim. Anos 70, 80 e 90, entre divisão de copos e o romantismo de uma época no geral, o lirismo por assim dizer, ouvia embevecido os Irmãos Piassi (Itamar, João e Paulinho), em Passos. Assim, deleitava-me com a riqueza da poesia melódica, que envolviam belas interpretações e o dedilhar hábil de finas notas musicais ao violão, como o Rancho da Goiabada, O Mestre-Sala dos Mares, De Frente Pro Crime, entre tantas. Maravilha só.

Na curiosidade poética, Aldir Blanc não compôs sua primeira peça musical com João Bosco. Começou com César Costa Filho (1971), canção feita e entregue para a voz da Pimentinha Elis Regina. A letra evidencia a ponta do iceberg do que viria adiante: “Ela sente a solidão do oitavo andar/todo dia à hora triste do jantar/só um copo, só um prato e ao lado um só talher/tudo é um em seu pequeno mundo de mulher”. Poesia é para quem sabe!

Aldir passou pela ditadura militar, tendo manifestado reações agudas e pontuais em versos, o que se pode depreender na circunstância criadora de “O bêbado e a equilibrista”. Está na prateleira da genialidade de quem deixa a marca do talento na saudade do etéreo.

Na letra, pontos e questionamentos intrínsecos ante a ditadura militar. Não há relato de manifestações oficiais do governo brasileiro pelo passamento do artista que mudou os rumos da música brasileira. Também não há como. Entende-se a causa.

E Regina Duarte, da Secretaria da Cultura de Bolsonaro, manda carta à viúva de Aldir Blanc e pede para não revelar o conteúdo, temendo patrulhamento.
É isso mesmo? De fato, e não de direito, uma “Rainha da Própria Sucata? Essa não, Viúva Porcina! Atitude genuinamente “porca!”

Dentre as composições de Aldir Blanc, destaca-se a poesia em forma de canção: “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”. Recomendável aos pés-de-valsa, os exímios dançarinos que se destacam no salão por desenvoltura. Como de resto, um convite ao amor a dois, através da subjetivação do fetichismo entre um casal que, ao dançar, dispensa ao outro eloquente tripartite: carinho, afeto e ternura. Amor ao largo, na formação do fenômeno aos amantes pela arte de quem vive a sublimidade do sentimento maior na capacidade do todo.

Uma obra a merecer aplausos se evidencia num salve-salve amigo. E em saudação, providencia dizer que “o amigo é para essas coisas”, sim. Enfim, um arsenal que se abriga no bunker de resistência artístico-musical no contar de mais de 600 outras geniais letras de muita riqueza lírica, cuja preciosidade pode ser lindamente conferida e  comprovada pelos amantes da boa música.

Aldir Blanc, em meio a muita alegria juvenil, na Vila Isabel, na meninice viveu o cenário de um quintal com o avô materno, Antônio Aguiar, que o levou a se valer na magia das lembranças para a construção e reconstrução de lindos textos. Perda lamentável por esse inimigo que ceifa vidas visíveis e invisíveis, com seus característicos tentáculos, ainda mais no cruel do invisível.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve ais domingos nesta coluna.