Opinião

A revolta da vacina

POR ALEXANDRE MARINO

8 de outubro de 2021

O Rio de Janeiro está em guerra. Três mil revoltosos atacam o patrimônio público, tombam veículos, destroem calçamentos. A polícia vai às ruas, enfrenta os rebeldes, mas o cenário é desolador. O saldo é de 30 mortos, 110 feridos, cerca de mil detidos. A causa de toda a tragédia: uma lei que tornava a vacina obrigatória. Parece notícia de última hora, mas aconteceu em 1904. A vacina era para combater a varíola, doença que foi considerada oficialmente erradicada do planeta em 1980. O primeiro imunizante foi desenvolvido em 1797 pelo médico inglês Edward Jenner, e seu método foi aperfeiçoado ao longo dos anos. Em 1904, o sanitarista Oswaldo Cruz impôs uma vacinação em massa da população, mas o ambiente político conturbado favoreceu a revolta popular contra a medida.

Quando aconteceu a chamada “Revolta da Vacina”, Oswaldo Cruz era um jovem médico de 32 anos, profundamente dedicado à pesquisa e encantado com a ciência e com o aprendizado da medicina. Dois anos antes do movimento, o presidente da República recém-eleito, Rodrigues Alves, estava assustado com a epidemia de febre amarela, que já levara ao túmulo 2.300 cariocas e estava fora de controle. Ouvindo indicações de pessoas que conheciam o médico, incluindo o diretor do instituto francês, Alves nomeou Oswaldo Cruz diretor de Saúde Pública, com recursos financeiros e amplos poderes para tomar as medidas que julgasse necessárias. O jovem sanitarista havia estudado por seis anos no Instituto Pasteur, na França, e havia retornado há pouco ao Brasil.

Ao assumir o posto, Cruz prometeu que acabaria com a febre amarela em três anos, e cumpriu o prometido, graças às medidas de combate ao mosquito Aedes aegypti. Ainda não havia vacina para essa doença. O sanitarista elaborou um código sanitário e formou brigadas para combater o mosquito e destruir criadouros de larvas. Enfrentando forte insatisfação popular, a ação de suas equipes conseguiu reduzir o número de mortes, de 1.000, em 1902, para 48, em 1904, até chegar a zero, em 1909, quando o médico deixou o posto de diretor de Saúde Pública.

A varíola era outra das doenças que matavam os brasileiros. Em 1904, o número de internações em um único hospital do Rio chegou a 1.800. A vacina já existia no Brasil, mas não era aplicada em larga escala. Oswaldo Cruz propôs uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação, aprovada pelo Parlamento, mas rejeitada pela população.

O médico foi chamado de “charlatão egoísta” em boletins apócrifos, se espalharam rumores de que suas medidas ameaçavam a saúde da população, canções populares o ridicularizavam. Houve até um levante militar, dominado por forças fiéis ao governo. Foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória e, três dias após a regulamentação da lei, o caos tomou conta do Rio de Janeiro, com interrupção do trânsito, fechamento de estabelecimentos comerciais, ataques a edifícios públicos e trocas de tiros.

O número de mortes por varíola caiu de 3.500, em 1904, para apenas nove, em 1906. Com o fim da vacinação obrigatória, o Rio de Janeiro sofreu em 1908 o mais forte surto de varíola de sua história, mas o povo correu para se vacinar. Em 1910 houve uma única vítima da doença. Oswaldo Cruz já ganhara prestígio internacional e o pequeno laboratório que havia projetado numa velha granja de Manguinhos, onde orientava médicos e estudantes em estudos e pesquisas, já se transformara no Instituto Oswaldo Cruz, hoje Fiocruz, responsável pela produção da vacina da AstraZeneca, de combate à Covid-19.

Ninguém que viveu àquela época está vivo e o Brasil, país de memória curta, prefere viver cada crise como se fosse a primeira. Ainda mais agora, quando o governo impõe uma política retrógrada, como se nosso ideal fosse uma volta à Idade Média. No século 19 o escritor alemão Stefan Zweig criou a expressão “Brasil, país do futuro”, durante muito tempo repetida por políticos e analistas. Hoje, porém, cabe melhor a frase do humorista Millôr Fernandes: “O Brasil tem um enorme passado pela frente.” É possível que, dentro de 30 anos, quando o Brasil estiver enfrentando uma das próximas epidemias – elas virão com força, como consequência da destruição ambiental – alguns dos adolescentes que se espantem hoje com a Covid-19 estejam trabalhando em hospitais e enfrentando as agruras de uma política de saúde irresponsável.