Opinião

A Pátria arrasada

POR ALEXANDRE MARINO

16 de julho de 2021

Que cratera impiedosa devora o futuro, digere sonhos e vomita veneno? É o coração do Mal. O Mal sem explicação, o Mal sem adjetivos, apenas o Mal. O representante do Inferno chegou à Terra por alguma fenda maldita, Aborto Fracassado. Chegou para se vingar. A ordem é: Destruir. Matar. Com armas, poder, retórica rude, primitiva, boçal. Matar com armas, matar com veneno, matar com fogo, matar com ódio, matar pela fome, pelo preconceito. A morte como intenção e gesto.

Pátria golpeada e insultada. Pátria armada. Pátria cagada. Pátria expatriada. O Klan que estupra a Pátria. Amar não se cogita. Armar é o que incita, o que importa é o ódio. Ódio aos artistas, ódio aos comunistas, ódio aos indígenas, ódio aos homossexuais, ódio ao pensamento, ódio à arte, ódio aos jornalistas, ódio aos que sonham, ódio aos que não podem sonhar, ódio ao povo. Estupros e assassinatos. Matar. Matar mulheres, matar homens, matar negros, matar brancos, matar mestiços, matar opositores, matar os diferentes. Matar os iguais.

A terra escavada, revirada, arrasada. Retirar da terra a beleza, a riqueza, o mel e o fel. Retirar da terra o sangue e a seiva. O sequestro da montanha. Trem de ferro, trem de minério, trem de bauxita, trem de terra. Qual o preço do resgate? Devolver à terra o veneno e a miséria. As trevas no fim de um túnel sem fim.

Vírus. Bactérias. Excrementos. A peste. As duas pestes, que corroem o organismo e dilaceram as vidas. A doença. Dejetos. Quinhentos e tantos mil mortos. E mais alguns milhares a cada dia. Milhões de mortos-vivos. Brasil, país de maricas! Deixar alastrar a doença. Negociatas com a vida humana. Vacinas só com propinas. Um dólar por dose. Fora o por fora.

Distribuir armas. Só os atletas, os fortes, sobreviverão. A raça pura. Chega de mi-mi-mi. Caguei! Prêmios aos torturadores e milicianos. Comendas aos assassinos. A Ordem da Desordem aos representantes do Mal. Balas perdidas com alvos certos. Nenhuma bala se perde. Mil e cem agrotóxicos liberados no Brasil desde janeiro de 2019, um terço deles proibido na União Europeia. Para envenenar pratos, copos e mesas. Tonturas, cólicas, náuseas, vômitos, dificuldades respiratórias, tremores, irritações na pele, nariz, garganta e olhos; paralisias, lesões cerebrais e hepáticas, tumores, alterações comportamentais, convulsões, desmaios, intoxicação aguda, coma. Brasil, país da doença planejada e da morte anunciada.

O agronegócio teve superávit recorde de janeiro a outubro de 2020, saldo de US$ 75,5 bilhões. Brasil, celeiro do mundo, 113 milhões de habitantes em situação de insegurança alimentar, segundo a ONU. Dezenove milhões de famintos. Morrem de fome. Morrem de dor. Morrem de doença. Morrem de frio. Morrem de abandono. Vivem na rua 220 mil brasileiros, um filho do capitão compra uma mansão de 6 milhões de reais.

Acabar com a fome? Coisa de comunista! Combater as desigualdades? Coisa de comunista! Educação de qualidade para todos? Coisa de comunista! Acabar com a miséria? Coisa de comunista! Justiça social? Coisa de comunista! Todos iguais perante a lei? Coisa de comunista! Obediência à Constituição? Coisa de comunista! Estado laico? Coisa de comunista! Protestar? Coisa de comunista! A polícia na rua. O meu Exército na rua.

Genocídio das nações indígenas. Garimpeiros, madeireiros, grileiros, fazendeiros, pecuaristas se banqueteiam no patrimônio nacional. Rodovias em áreas de preservação. Exploração de minério em áreas de preservação. Recorde de desmatamento. Floresta destruída. Rios destruídos. Seca, miséria, fome, fogo, morte. Fogo na Amazônia. Fogo no Pantanal. Fogo no cerrado. Fogo na Mata Atlântica. Animais em extinção. Povos originários em extinção. Rios secos, cemitérios transbordantes.

Deutschland über alles, Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Arbeit macht frei. O trabalho, a união e a verdade libertarão. Slogans nazistas se encaixam como luvas. Um secretário de Cultura nazista, um negro racista na Fundação Palmares, um judeu simpatizante do nazismo na Secretaria de Comunicação, assessores supremacistas brancos nos gabinetes do Palácio, um capitão expulso do Exército por ameaça de terrorismo, representante das milícias. Cala a boca, jornalista!

A cada esquina uma sombra extinta. Na Terra plana estamos à beira do abismo. Convoquem um juiz terrivelmente evangélico. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. A Pátria é cristã. O que seria de Deus, não fosse o Demônio?

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna