Opinião

A minha rua [5]

POR ALEXANDRE MARINO

23 de abril de 2021

A minha rua guarda segredos que permanecem, apesar das transformações que ela sofreu. As pessoas que lá viveram e por ela passaram deixaram marcas visíveis além da dimensão de suas vidas. Refletir sobre a vivência daquelas pessoas, por desimportantes que tenham sido, é refletir sobre a humanidade que somos, sobre os caminhos circulares que traçamos e percorremos. É este o poder da memória, cuja função não é provocar nostalgia por um passado virtualmente melhor que o presente, mas expor as transformações que ocorreram e projetar um futuro factível. Despeço-me temporariamente de minha rua, mas ela ainda indica as direções.

Meu avô viveu 85 anos. Nasceu em 1890, ainda no século 19, e morreu quando eu já estava na universidade, iniciando o curso de jornalismo, onde nas aulas práticas eu usava a máquina de escrever enquanto o telex recebia textos das agências de notícias. Como nós, que vivemos no século 21 e nos surpreendemos com os avanços da tecnologia, meu avô testemunhou grandes transformações. Um de seus ofícios, quando jovem, foi o de ferrador de cavalos. O cavalo era o principal meio de transporte nos tempos de sua juventude. Já idoso, ganhou de presente uma televisão, que em 1968 lhe mostrou as imagens dos astronautas pisando na lua.

O rádio era, até então, a janela pela qual meu avô contemplava o mundo. As ondas curtas lhe traziam notícias e lazer, misturados aos chiados do rádio, que captava melhor as emissoras se ele segurasse a ponta de um fio desencapado, que servia de antena. Todos os dias, logo após o badalo do sino da Igreja de Santo Antônio, na hora do Ângelus, ele sintonizava a Rádio Nacional do Rio de Janeiro para ouvir “Jerônimo, o Herói do Sertão”, um seriado tão emocionante quanto as séries mais badaladas destes tempos de Netflix. Eu também era viciado, e ficávamos os dois de ouvidos pregados no som oscilante do rádio.

Apesar das imagens da TV, meu avô não acreditou que o homem pisou na lua. Eu, do alto de minha arrogância pré-adolescente, debochei de sua descrença. O mundo era uma sequência de acontecimentos mágicos, que eu via com deslumbramento. Naqueles anos, a Guerra Fria colocava Estados Unidos e União Soviética em permanente confronto, e a tecnologia começava a misturar o real e o fictício. No Brasil, uma insana ditadura massacrava seus opositores com torturas e assassinatos. Mas a censura filtrava as notícias que chegavam. A caminhada do astronauta na lua, vista na tela da TV, era a fantasia permitida.

Todos os domingos, meu avô e minha avó assistiam à missa das 9 horas na Igreja de Santo Antônio. Cumpridas as obrigações religiosas, sentavam-se no alpendre e meu avô exclamava: “Hora do cinema!” Era a senha para que uma de minhas tias lhes trouxesse uma cerveja Malzbier e um queijo minas, que meu avô comia a grandes talagadas. Eu, criança ainda, fiz minhas primeiras e discretas degustações de cerveja durante esses rituais.

Para meus avós, a cerveja dominical era o prêmio pelo dever cumprido. A missa era parte de uma rotina religiosa que incluía a comunhão, o terço rezado diariamente e uma educação familiar rígida, guiada por dogmas e culpas. Eles acreditavam naquele Deus masculino, feito à imagem e semelhança do homem, um velho de barbas brancas vigilante e impiedoso, pronto para punir quem saísse da linha. Foi assim que meu avô me ameaçou com o inferno, porque, ao treinar para minha primeira comunhão, me engasguei com uma hóstia e a cuspi. As hóstias, ainda não consagradas, eram cedidas pelos padres a minhas tias para que eu fosse preparado.

O Deus ameaçador e o astronauta na lua são duas faces de uma mesma moeda – ou, para usar uma expressão em voga, as duas faces da terra plana. A humanidade manda robôs a Marte para fazer pesquisas, mas a imagem da bandeira cravada no solo lunar não passa de uma demonstração de poder. Assim como os outros animais, as plantas, as bactérias e os vírus, somos apenas parte da Natureza, que não foi feita para nos servir – ainda que as metáforas bíblicas insinuem isso. A diferença entre nós e as outras criaturas é apenas a arrogância e a crença de que somos os preferidos de Deus.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna