Opinião

A minha rua [4]

POR ALEXANDRE MARINO

9 de abril de 2021

Como qualquer outra rua da cidade, a Deputado Lourenço de Andrade revelava apenas um pequeno pedaço de mundos escondidos entre as paredes das casas. Quem passasse por ali, na calçada oposta ao nosso velho sobrado, e observasse pela segunda janela, veria a ponta de um armário, que ficava no quarto de meu avô. Sobre o armário, um chapéu. Meu avô era do tempo em que os homens não dispensavam um terno e um chapéu, mesmo que saíssem de casa para ir ali na esquina. Ele trouxe esse costume até seus últimos anos, quando os homens andavam de camiseta regata pelas ruas e as mulheres já haviam adotado a minissaia.

Minhas tias solteiras, que moravam com meus avós, ficavam de olho no chapéu. Quando tinha a intenção de sair à rua, a primeira coisa que meu avô fazia era pegar o chapéu. Já idoso, ele andava devagar, com certa insegurança, mas o pavor de todos nós é que saísse sem ninguém perceber e cruzasse a rua. Criado numa época em que apenas cavalos e carroças transitavam pela cidade, ele não assimilou bem a cultura do automóvel, e não costumava olhar para os lados ao atravessar.

Não que o movimento da rua fosse grande. Passavam poucos carros, e continuavam passando cavalos, carroças e charretes. Havia até uma carrocinha puxada por cabritos, que diariamente passava por ali. Lembro-me de seu condutor, mas não sei o que fazia ou aonde se dirigia. Os cabritos deixavam marcas de sua passagem, umas bolinhas pretas bem diferentes das marcas deixadas pelos cavalos.

Em suas saídas, meu avô geralmente ia à Farmácia Piantino ou à Farmácia do Nino, em busca de algum medicamento, ou até a Esquina do Tula para comprar cigarros. Ele foi fumante inveterado desde a juventude. Para evitar que saísse, uma de minhas tias passou a fazer as compras para ele. Nessa época, eu colecionava maços de cigarro, uma mania de quase todos os meninos de minha idade, e a convencia a comprar alguma marca que faltava na coleção. Às vezes meu avô reclamava. Lembro-me que deu uma bronca ao acender um Cônsul, que tinha essência de hortelã. Eu, menino, nem sabia que havia diferença. Tempos depois, pouco antes de meu avô morrer, intrigado por ele nunca ter sofrido de um câncer no pulmão, observei seu jeito de fumar: ele enchia a boca de fumaça e jogava fora, sem tragar.

Bem criança ainda, eu circulava pela vizinhança sem problemas para atravessar as ruas. Certa vez, subi até a esquina da Bernardino Vieira e entrei no bazar do Rufino. Há tempos eu vinha namorando uma espingardinha de rolha que ele vendia, mas dessa vez criei coragem e disse a ele: “Vou levar a espingardinha, depois meu pai vem pagar.” Mesmo desconfiado, Rufino concordou.

Eu precisava da espingardinha, porque bandidos malvados e monstros interplanetários circulavam no fundo do quintal, entre as galinhas e as árvores, e era preciso combatê-los. Foi ali que minha mãe me encontrou, escondido atrás da jabuticabeira. Ela já estava sabendo da compra. Conversamos e fizemos um acordo: eu ficaria com a espingardinha, mas não faria isso mais. Eu continuava sendo um bom menino e o quintal do meu avô estava salvo.

Das brincadeiras solitárias passei às coletivas, quando eu, meu irmão Luiz e o André, filho de nossa cozinheira, Sá Afonsina, vivíamos grandes aventuras no velho oeste do quintal. Entre mocinhos e bandidos, todos nos salvávamos. Depois entramos na fase do futebol de botão. Eu, Luiz, nosso primo Flávio, Luiz Carlos, amigo que morava na rua do Colégio das Irmãs, e o Zé Emídio, radiotelegrafista do DER e amigo de meu pai, nos enfrentávamos em campeonatos tão disputados que não raras vezes acabavam em briga.

Tudo isso se passava entre as paredes daquela rua, que agora vai se transformando em outra rua, parte de um outro mundo. Com o tempo, a rua ficou pequena, depois a cidade ficou pequena, até que eu descobrisse que o mundo é grande e complexo demais. A memória é um reservatório quase infinito de lições que poderão nos guiar pelos caminhos de um futuro sempre imprevisível. É feita de boas e más histórias, e é preciso resistir à tentação de esquecer as que nos desagradam.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna