Opinião

A minha rua [3]

POR ALEXANDRE MARINO

26 de março de 2021

Meus olhos de menino não sabiam que aquela rua se manteria viva graças às personagens aparentemente desimportantes que circulavam por ela, fatos quase banais que ocorriam diante de mim. Como imaginar que a carrocinha de algodão-doce que estacionava todas as tardes diante da loja de meus pais traria de volta aquele sabor, décadas depois, a centenas de quilômetros de distância? Como imaginar que o murmúrio das rezas das procissões que passavam pela rua, ou a música ritmada dos Congados, seriam ouvidos até hoje?

Nossa casa era composta de três partes indissociáveis. O sobrado, onde viviam meus avós maternos e quatro tias, e foi se esvaziando de moradores com o passar dos anos; a casa do fundo, construída por meus pais e onde éramos cinco, até que, aos 17 anos, fui embora para Belo Horizonte, e o Bazar Magom, no térreo do sobrado. O bazar nos supria de objetos escolares, atendia à religiosidade de uma vasta vizinhança, com bom estoque de terços, estampas e imagens de santos, e mais tarde até artigos de umbanda, que proviam religiões de origem afro, apesar dos protestos silenciosos dos católicos.

Além de administrar o bazar, meu pai cumpria ali suas tarefas como servidor público, exercendo uma profissão hoje inimaginável: ele era radiotelegrafista do Estado, e instalara nos fundos o seu equipamento de trabalho. Tinha horários definidos para receber e transmitir notícias e mensagens diversas, e ouvíamos o ti-ti-ti monótono do código Morse, que ele traduzia para linguagem inteligível na máquina de escrever. Depois de datilografar as mensagens, pegava o carro e as levava aos destinatários, geralmente órgãos públicos da cidade.

Cumprindo esse ofício ele fez amizade com vários radiotelegrafistas Minas Gerais adentro. Um desses era de Formiga, chamava-se Geraldo Magela. Quando sua filha Beth e o marido, Alvimar Costa, funcionário do Banco do Brasil, se mudaram com a família para Passos, Magela deu a eles a referência de meu pai, única pessoa que conhecia na cidade. Quando foram nos visitar, levaram o filho mais velho, garoto da minha idade, com quem descobri grandes afinidades e se tornou um de meus melhores amigos. Marco Túlio vive ainda hoje em Passos, o que não o impede de ser reconhecido nacionalmente como escritor e de já ter publicado inúmeros livros – eu mesmo perdi a conta.

Enquanto minha mãe trabalhava no Colégio Estadual, onde era professora, meu pai estava quase sempre em casa, embora circulasse muito pelos arredores, onde compartilhava com inúmeros amigos seu bom humor e suas piadas. Um desses amigos era o Gaspar, da Sapataria Passos, que ficava do outro lado da rua, um pouco abaixo da esquina da rua Formosa. Ele fabricou quase todos os sapatos que usei nos meus primeiros 12 anos, incluindo as meias-solas, coisa que nem se usa mais. À noite, mantinha a sapataria aberta para receber os amigos, para intermináveis conversas sobre coisa nenhuma – e muitas risadas. Meu pai era frequentador assíduo dessas reuniões.

Ao lado da sapataria ficava o salão do Juca Rocha, cabeleireiro, onde trabalhavam, além dele, a esposa e as filhas. Não confundir com o Juquinha Barbeiro, que atendia na Rua Formosa, acima do posto de gasolina. Ele cortava meu cabelo no estilo Príncipe Danilo, por imposição do meu pai, e foi ele que ouviu a bronca quando o convenci a mudar o corte, porque, afinal, cabelos longos começavam a virar moda. “Juquinha, corta direito o cabelo desse menino”, disse meu pai, me segurando pelo braço. E voltei para a cadeira, onde permaneci cabisbaixo, sentindo a máquina passar pela minha cabeça, enquanto lia incontáveis vezes a palavra “Ferrante” no apoio para os pés.

Nessa época a Rua Formosa terminava na esquina com a Lourenço de Andrade. Só muitos anos depois fizeram seu prolongamento até a recém-aberta Avenida Arouca. Tiveram que demolir a casinha do Seu Lucas, um preto velho que vivia sozinho e era cheio de histórias. Filho de ex-escravos, Seu Lucas era conhecido na vizinhança, mas vivia recolhido na casinha de dois cômodos, chão batido e fogão a lenha. Usava uma boina e calçados Conga. Ele já havia morrido quando canalizaram o ribeirão que passava por trás de seu terreno e construíram a Avenida Arouca em cima.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna