Opinião

A minha rua [2]

POR ALEXANDRE MARINO

12 de março de 2021

A minha rua acompanhou meus passos e cresceu comigo. Acolheu o menino que fui, como se me abraçasse. À medida que eu crescia, a rua crescia junto. Meu primeiro mundo foi minha casa, depois seus arredores, a calçada, os vizinhos do outro lado. Quando fui à escola pela primeira vez, descobri que a rua era comprida e ia, em linha reta, até o Colégio Estadual. Depois da Praça do Rosário ela mudava de nome, mas para mim era a mesma rua, percorrida no carro do meu pai.

A vizinhança mais próxima era a casa do Tio Vasconcelos, a primeira à direita. A proximidade se fazia por um caminho que cortava o quintal de meu avô até um portão que havia no muro entre as duas casas. Por ali circulávamos livremente, para colher jabuticabas ou ver o Tio trabalhando na oficina no fundo do quintal, onde dava nova vida a objetos inúteis ou construía brinquedos para nós. Por aquele caminho ele e sua esposa, Tia Elza, passavam todas as tardes, para tomar café com meus avós e minhas tias.

O Tio era meu tio mesmo, irmão de minha avó, mas a cidade inteira o chamava assim. Ele foi uma das pessoas mais interessantes que conheci, e eu gostava de passar horas na casa dele, vendo seu trabalho como artesão, ajudando-o a jogar miolo de pão aos pombos ou ouvindo suas histórias. Não era apenas a memória viva da cidade: tinha uma coleção gigantesca de publicações, documentos e objetos que diziam respeito à história de Passos, guardados em vários espaços de sua casa, especialmente num grande móvel que ficava no mesmo quarto onde Tia Elza pilotava a máquina de costura.

Pessoa gentil e carismática, o Tio era farmacêutico por profissão, o que o tornava uma espécie de médico da vizinhança. Minha avó, que tinha lá suas hipocondrias, costumava chamá-lo para medir-lhe o pulso ou aplicar uma injeção. Ele trazia um estojinho de metal, onde jogava um pouco de álcool, acendia fogo e fervia a agulha com que aplicava medicamentos em toda a família – nos braços dos adultos e nos bumbuns das crianças.

Debaixo da enorme jabuticabeira do quintal de sua casa, eu, meus irmãos e meus primos inventávamos brincadeiras ou, uma vez por ano, participávamos das festas juninas que reuniam toda a família e alguns vizinhos, com direito a fogueira, bandeirinhas e guloseimas preparadas por Tia Elza. No Natal, acompanhávamos a montagem do presépio pelas suas mãos de artista.

No quintal de sua casa havia também uma passagem para a rua Santo Antônio, paralela à Deputado Lourenço de Andrade. Por ali se cortava caminho para chegar ao sobrado da Tia Badica ou à Igreja de Santo Antônio. Passava-se ao lado do casarão onde havia funcionado a Farmácia Vasconcelos, que o Tio administrava. Um dia eu estava sentado ali e o Virgílio, filho do Tio, passou. Ao me ver, tirou do bolso uma bala Pipper e me deu. Eu não gostava de bala Pipper, mas aceitei e agradeci.

Várias casas da rua eram tão históricas quanto a do Tio, ainda que seu acervo fosse apenas a arquitetura. A de meu avô, um sobrado antigo de grossas paredes, era uma delas. Depois que foi vendida, os novos proprietários fizeram uma reforma em sua fachada, para adaptações ao novo uso. Quando eu soube, pedi a um amigo, o escritor Marco Túlio Costa, que fosse lá e pegasse um tijolo para mim. O pedreiro que trabalhava na obra se espantou. “Que coisa! Toda hora vem alguém aqui pedir um tijolo!

Outra casa histórica era a da Pensão da Dona Chiquinha, mas essa não existe mais. Meu pai, antes de se casar, havia morado lá. Um dia, o esperávamos para o almoço e ele chegou com um caneco de louça cheio de feijão. Feijão feito no fogão a lenha, que ele foi buscar na pensão, para matar a saudade. A surpresa virou hábito. Todos os dias, eu mesmo ia buscar feijão para o almoço. Dona Chiquinha, já bem idosa, havia passado a administração da pensão à filha mais velha, Dona Aparecida, e ela mesma enchia o caneco para mim. Enquanto eu esperava o feijão ficar pronto, descia para o quintal e ia comer amoras.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.