Opinião

A minha rua [1]

26 de fevereiro de 2021

A minha rua começa na primeira infância, bem antes que eu visualizasse outros caminhos, atravessa meu tempo e meu espaço e segue adiante, por curvas, elevados, depressões, pontes, túneis, até sabe-se lá onde. Minha rua começa na Esquina do Tula e vai subindo devagar, até que mudem seu nome e eu vá buscar outras ruas.

Naquela rua nasceu um mundo pequeno, que depois se encheu de horizontes. Vamos percorrê-la. Comecemos por minha casa, que para mim era o centro do mundo. Era um sobrado antigo, construído por meu avô na primeira década do século passado, quando nem rua por ali existia. Era conhecida, porque lá, no térreo do sobrado, ficava o Bazar Magom, criado por meus pais quando se casaram. Vendia artigos escolares, religiosos e muitas miudezas. Meu pai e minha tia Nezita cuidavam da loja, mas depois que cresci um pouco também trabalhei lá. Eu já sabia tabuada e era bom nas contas.

Naquele sobrado, onde hoje funciona a loja Toca da Coruja, meu avô viveu desde então, na companhia de minha avó e quatro filhas solteiras, ali morreu e foi velado, como era costume na época. Eu tinha 18 anos, já morava em Belo Horizonte, de onde saí às pressas depois que minha mãe me ligou. Cheguei ao sobrado por volta de 7 horas da manhã, e fui recebido na calçada, por uma pessoa amiga da família. Ela pegou minha mochila e eu subi a escada. A casa estava cheia de gente, e pela última vez meu avô era o centro das atenções.

O sobrado tinha um quintal enorme, onde meus pais construíram uma pequena casa, e onde vivemos como uma grande família. Eu devia ter por volta de 8 anos quando meu pai chegou com um novo morador: Pequi, um cachorrinho branquinho e peludo, companheiro durante toda nossa infância e adolescência. Quando morreu, eu já estava na universidade, morando em Belo Horizonte. Meu pai o ganhou do Sr. Darcy, dono da Casa Capitólio, que ficava em nossa rua, acima da Esquina do Tula. Era uma loja de artigos esportivos, e lá comprei incontáveis bolas e pares de tênis.

Eu era ainda muito criança quando meu pai comprou seu primeiro carro, um Ford Prefect, acho que fabricado por volta de 1958. Meu pai o chamava de Prefetinho. Era preto, como quase todos os carros nessa época, e o estofamento era vermelho. Meu pai o mantinha brilhando, sempre estacionado diante da loja. Eu fiquei tão encantado com o carro que resolvi morar nele. Nos primeiros dias, eu me recusava a sair para almoçar e minha mãe chegou a levar o prato para mim. Depois de um tempo enjoei do carrinho, e meu pai também. “Essa porcaria não sai da oficina”, dizia meu pai, depois de quebrado o encanto.

Logo abaixo de nossa casa havia um posto de gasolina, na esquina da rua Formosa. Era de propriedade do José Mata-Burro, que morava na casa em frente à nossa. Acima do posto vivia a família do Sr. José Junqueira, casado com D. Sônia, que, eu soube depois, era filha do ilustre passense que dava nome à nossa rua, o Deputado Lourenço de Andrade. Eram nossos vizinhos da esquerda. Do alpendre de meu avô víamos o telhado da casa deles, sempre cheio de pardais e bem-te-vis. Daquele alpendre o meu primo Edmar chutou uma bola de plástico que eu adorava, que passou pelo muro e nunca mais voltou.

A Lourenço de Andrade, que tinha a mão de trânsito subindo, e não descendo, como é atualmente, já era asfaltada nessa época, desde os tempos em que o próprio Dr. Lourenço Andrade era prefeito e a rua se chamava Ruy Barbosa. Mas estava sempre em obras. Quando o caminhão da prefeitura parava diante de casa para fazer reparos, eu levava uma caixinha e pedia um pouco de asfalto. “O que você vai fazer com isso, menino?“, perguntava o funcionário.

Vou asfaltar minhas estradinhas“, eu respondia. O quintal da casa de meu avô era cortado por estradinhas, e também vivia em obras. Tanto as estradinhas do quintal quanto a rua levavam, e levam, a distâncias nem sempre imagináveis. As histórias não cabem todas aqui, mas depois eu conto mais.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna