Opinião

A mamãe tico-tico e seu filhote adotivo

POR ALEXANDRE MARINO

7 de Maio de 2021

Agora que se aproxima o Dia das Mães, lembro-me do pitoresco relacionamento entre a mamãe tico-tico e o filhote de chupim, que acompanhei de perto por vários dias numa viagem à Serra da Mantiqueira. E pergunto: que presente o chupim dará à tico-tico no próximo domingo?

A natureza tem situações curiosas, se observamos atentos, sem qualquer julgamento, e deixemos livre o nosso olhar, além dos limites que nossa cultura civilizada nos impõe. A observação do comportamento das aves é uma experiência enriquecedora. Muitas espécies de pássaros se adaptam às alterações que nós, humanos, promovemos no meio ambiente, e são capazes de viver ao nosso redor. Não me refiro a pássaros em gaiolas, onde perdem o impulso de vida, e sim aos pássaros livres, que não se deixam domesticar e mantêm vivo o seu instinto.

O tico-tico é ave comum em todo o Brasil, e não é difícil encontrá-lo em áreas urbanas. Não me lembro de tê-lo visto em Passos, mas certamente está presente na região, em plantações ou áreas abertas. Com cerca de 15 centímetros, tem a penugem pardo-acinzentada e bico cônico e forte, e nesses aspectos se assemelha ao popularíssimo pardal. A principal diferença é que o tico-tico tem uma faixa alaranjada ao redor do pescoço, como se usasse um cachecol natural.

Já o chupim é menos comum em áreas urbanas, embora possa ser visto em parques e jardins. Ao contrário da grande maioria das aves, ele não constrói ninhos. Seus ovos são depositados em ninhos de outras espécies, o que faz de cada indivíduo dessa espécie um “filho adotivo”. Os ornitólogos chamam esse fenômeno de nidoparasitismo, ou seja, o chupim é um parasita do ninho alheio.

O chupim parasita várias espécies, mas uma das preferidas é o tico-tico, cujos ovos levam 14 dias para chocar, um ou dois a mais que os do chupim. Assim, o chupim filhote nasce antes, o que lhe garante o alimento e os cuidados da mamãe tico-tico. Às vezes destrói os outros ovos, livrando-se da concorrência dos “irmãos”.

Mas a mamãe tico-tico não sabe de nada. Para todos os efeitos é seu filhote, que, uma vez nascido, tem que ser alimentado. Mesmo depois de sair do ninho e já voando normalmente, o chupim persegue a tico-tico por onde ela vai, emitindo gritos característicos, sacudindo as asas e abrindo o bico, à espera do alimento. O chupim adulto mede entre 17 e 21 centímetros, e ao longo dos 15 dias em que é alimentado pela mãe adotiva ele cresce bastante.

Por isso, causa estranheza ver a tico-tico dando comida no bico a um pássaro que é maior que ela e totalmente diferente e, além disso, plenamente capaz de ir em busca do próprio alimento. Também conhecido popularmente como vira-bosta ou rola-bosta, devido ao hábito de procurar sementes nas fezes do gado, o chupim macho é preto-azulado, e a fêmea é marrom escura.

Ambos os pássaros existem em todo o Brasil, especialmente no Sudeste, onde a ocorrência é intensa. No entanto, há casos de desaparecimento do tico-tico em algumas áreas, devido ao nidoparasitismo. Na natureza, as espécies interagem de forma que cada uma encontre seu espaço e desenvolva um mecanismo de sobrevivência. Por alguma razão, ao longo da evolução o chupim fez do nidoparasitismo um caminho para a preservação da espécie.

Se um gato sobe numa árvore, ataca o ninho de um pássaro e devora os filhotes, ele não está praticando o mal ­– está seguindo o instinto em busca de alimento. O pássaro não pensa em vingança contra o gato, apenas constrói o ninho em outro lugar e volta a chocar novos ovos. Conceitos como o bem, o mal, a ética e a justiça são criações humanas, assim como as regras e limites que tornam plausível o convívio social.

Dessa forma, a adoção de uma criança é possível, desde que cumpridas algumas regras. Ao observar o esforço da mãe tico-tico para alimentar o filhote adotivo, haverá quem diga que o chupim é um aproveitador. Mas no contexto da natureza, o que há é a interação de duas espécies que seguem, cada uma, o seu instinto. Já a civilização humana foi fundada sobre preceitos morais e éticos, mas essa é outra discussão.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna.