Opinião

A farra continua

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

8 de fevereiro de 2021

Não sou favorável a que usem a expressão salário de fome. Não só é deselegante como impróprio. No uso adequado de uma bonita expressão, é como envenenar prestativa ilusão de alma. Principalmente a de quem trabalha pela contraprestação do esforço empregado. Em sendo sagrado o trabalho, no pleno da certeza, fruto do milagre é o salário. Vem de sal. Faz alusão a esforço, suor, lágrima. E quanto à lágrima, o fluido lacrimal deve ser respeitado em toda e qualquer circunstância. Na alegria e tristeza.

No derivativo, dê ao trabalho o devido valor. Se muito, pouco ou mais ou menos é indiferente. No balanço dos altos e baixos, de se consultar a competência dos haveres. Quem sabe gastar e usa de comedimento quanto ao produto do seu trabalho, decerto faz render muito do que ganha em favor do sustento e de terceiros. Em locuções de compadres – uso corrente no dia a dia – a fusão da água com fubá. Saber e fazer na medida certa.

Mas como? – poderão dizer. – O salário que ganho mal dá para adquirir um rolo de papel higiênico. Expressamente, então, se deve falar: cagão é o que é – ao pé da letra – na condução ao vaso sanitário, ao qual, por bem ou por mal, há de achar aplicação adequada. Calma! O Brasil ainda é nosso. A Amazônia, não se sabe. Biodiversidade em todos os sentidos. Tantos os apreços sem preços. Degringolam-na a todo instante. Os States não andam nada bem com o Brasil. Documentos oficiais o comprovam. E envolve concerto de nações. Muito leite condensado com pão há de passar pela adutora de Guandu. E haja rima pobre para contemplar indigna proeza.

Adutora, para quem não sabe, conduz água. Não ideias. Ideias desprovidas de cabeça não pensante. Inócuas. “Isso daí”. Falar-se em nível social e cultural está-se cometendo crime lesa-pátria. Patriota de relevantes serviços é o que dizem. Até hoje não se sabe quais os préstimos. E por melhores salários, tinha mesmo que elaborar planos para explosão de bombas em quartéis e em outros pontos estratégicos no Rio de Janeiro? Dependendo do ponto de vista, dizem que sim. Não há de fazer agora juízos de valor. Os tempos são outros.

Salário é para quem trabalha ou na forma de benefício para quem o fez ao longo do tempo. Meritocracia louvável. Os verdadeiros heróis. Mas tiram muito em folhas de pagamento de quem recebe para mercê de quem não trabalha e não precisa. Pouca vergonha. Onde já se viu! Na garantia da sorte, querem ver exemplos básicos, que fazem render muito e tanto? E se resumem em lição de casa para muita gente:  a merreca recebida pelos aposentados.

Como rende! Se formos observar as folhas de pagamento e os beneficiários relativos dos suburbanos proventos, vamos nos entreter com quadros interessantes, tanto ou mais que os pictóricos desenhos nas sacrossantas galerias de Louvre. Na outra ponta, tomem compras de votos, rega-bofes e festas palacianas regadas a champanhe de fina qualidade, às escâncaras. Falam de uns e no mesmo riscado seguem a marcha. Com a ajuda do até então execrado Centrão, fora eleito o candidato oficial a peso de interesses. Bilhões rolaram. Um, dois, três… Bilhões!

Conheço gente que ganha soma ultrajante de dinheiro e gasta tudo e mais um pouco antes de chegar às suas casas. Quando o ganho perde e se inferioriza no calendário. Tão batido como verdadeiro: fim de mês menor que o salário. Mais é que rir. Depois, haja preciosos colaboradores para a salvação da Pátria amada mãe gentil. E é tanta gentileza que não cabe na história que um dia alguém vai contar em detalhes. E outra: com os princípios rudes da verdade aritmética. E vai se resumir, pura e simplesmente, no antes e depois de uma facada num espírito delinquente e indolor.

Acham normal morrer. Até que é. Somos mortais. Forçar a morte e garanti-la a preço ágil e vil, à prestação de inócuos medicamentos, não. Os fatos que estão ocorrendo não são nada apreciáveis e tampouco nobres. São tétricos. No compasso do era uma vez, bem lá atrás, inicia-se a obra com autênticos e não dignificantes gestos de rachadinhas. Gente que não trabalhava e recebia. Saraivadas de tiros a esmo. Tal e qual. No rastro do heroi, ao depois, contraiu-se o que se pode chamar de regência natural de berço. Saiu-se ao pai.

E seguiu-se estrada afora. Com os ditames da roda formada, na brincadeira de Boca de Forno. Quem se lembra? “Boca de Forno? Forno! Tira bolo? Bolo! Farão tudo que o mestre mandar? Faremos todos! E se não fizerem? Ganharemos bolos!” Na genética familiar, meros aprendizados. Como no complexo da “ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar”. É o que se vê. Assim foi. Assim é. E tem sido. E em havendo início, meio e fim, não chegamos ainda ao último item. Muita água há de correr por debaixo da ponte que ainda não caiu. É aguardar para ver.
Para o que não tem remédio, remediado está.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.