Opinião

A fala e a escrita

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

5 de julho de 2021

Convidado a ministrar palestra numa escola pública, depois de agradecer pelo convite, indaguei aos diretores e professores o tema que gostariam que abordasse. – “Sobre o ato de escrever. Escreve para jornais, em veículos de comunicação. Bem oportuno que discorra sobre o tema” – disseram.

Sem delongas, não me ocupei de preparativos especiais. Lembrei-me de uma questão básica: a forma natural da escrita. A escrita é a representação da palavra, do que pensamos e do que sentimos.

E assim foi. E fui. À solenidade, em meio a expectativas do ato, comecei dizendo à plateia (alunos, professores e autoridades presentes) que é mais complicado aprender a escrever do que a falar.

Por outro lado, embora muitos saibam escrever com boa desenvoltura e qualidade técnica, nem sempre conseguem retratar com fidelidade certas emoções. Como descrever o prazer, o medo, a ira, o ódio, a paixão, a aflição. Questões subjetivas, os sentidos e as sensações como um todo.

No contexto geral, o gênero humano dispõe de muitas habilidades. Sem sombra de dúvida, a arte de escrever é uma das mais bonitas, ao tempo que das mais difíceis e espinhosas. Há quem chega aos píncaros da glória em suas vertentes profissionais sem o domínio desse instrumento. Vá lá. No entanto, quando se aproxima dos divisores da escrita, um deus nos acuda. O saber ler e escrever, matéria delicada. E há de acrescentar outro elemento: a ciência da interpretação.

Não raro, há os que sabem ler e escrever. Contudo, ocorre a indisposição trágica de não saber interpretar o que está escrito. Tanto quanto, linha e análise de veracidade, outra aberração que se estende muito por aí.

Há provas da existência de nossos antepassados que nos legaram toscos desenhos feitos e trabalhados em ossos, mas nenhum de qualquer espécie de escrita.

Pelo sim e não, a escrita é, na realidade, a mais maravilhosa invenção de todos os tempos. Quando, nesta solenidade de que participei, joguei malhas de redes no mar do saber e do conhecimento, em busca de auspicioso auditório.

O que acham que “acharam” da minha palestra? Poderão dizer: maravilhosa! Que fui aplaudido… E de pé! Menos. Não foi bem assim. Longe disso. Usei de astúcia.

Numa esperteza à [moda] Zeca Pagodinho, dediquei 20 minutos de minha fala à escrita – esse o alvo –, os demais 40 minutos consagrei-os a futebol, pagode, funk, hip-rock, rap, forró, músicas dos universitários, piadas, e coisas do gênero. Até mesmo das musas de Ezinho Joele fiz menção. Ele que, mediante ‘ossos do ofício’, anda aprontando nas redes sociais. Enfim, nada a ver com a escrita.

Querem saber? Tudo transcorreu dentro da mais absoluta normalidade. Não obviamente nos conformes das mil maravilhas. Isto sim, na limitação do que pôde dar.

A vida continua. A esperança é de que na contabilidade do rentável. Na efervescência, dá mostras de que é bela. E de que vale a pena ser vivida, com ou sem Fernando Pessoa em líricos pedaços de doce vagares. A despeito de pedras tantas de tropeço a permear estradas de cada caminho, momento e empreitada.

Assim como as nuvens, numa filosofia pra lá de boa, o hoje está de um jeito, amanhã de outro… Isso quando o brigadeiro resolve dar as caras para azucrinar o céu que, por igual, a cada hora se apresenta de uma forma e maneira, no objetivo sempre presente e agradável de enfeitar a natureza e nossas vidas de cada dia.

Como samba de alegoria de outrora, vamos tocando o enredo e o barco. Hoje pode. Amanhã, a bem verdade, não se sabe. Não se dá notícia. E o ontem, por constranger, desliga-se da tomada. Passou. E a vida, como que em operação de rescaldo, segue.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.