Opinião

A ditadura e o Bolsonaro

Esdras Azarias de Campos

26 de junho de 2021

A minha temática principal, neste prestigioso jornal Folha da Manhã em colaboração mútua desde 1992, tem sido sobre política nacional. Esta é a área onde me situo mais à vontade, devido à minha formação no campo das Ciências Sociais (curso de História) e, sobretudo, porque também tive uma influência familiar onde se respirava política 365 dias por ano, por todos os anos da minha infância e juventude.

Recebi grande influência e interesse pelo debate político de meu pai o Professor e poeta passense Ananias Emerenciano Campos, de saudosa memória. Depois passei por uma experiência das mais enriquecedoras para formação de um cidadão ao participar dos movimentos políticos estudantis em Belo Horizonte, no período em que o Brasil vivia um efervescente momento de vigorosa politização do povo de 1961 a 1964, a qual politização foi estancada pelos golpistas civis e militares, o que resultou infelizmente para o país na vitória das forças reacionárias de vinte um anos de ditadura. Não pretendo fazer aqui um depoimento detalhado de quem vivenciou sob o tacão da tal ditadura do princípio ao fim. Mas, apenas demonstrar minhas motivações em tratar dos temas da política os quais tenho a grata oportunidade de publicá-los aqui na Folha da Manhã. E, hoje, sobretudo, trazer aí sim, um depoimento pessoal de que o atual momento político brasileiro sob o desgoverno Bolsonaro tem algo em comum com o tempo às vésperas do golpe de 1964. Aquele mesmo clima de conspiração no ar e de que está para acontecer algo de podre no reino da Dinamarca, digo, do Brasil que teima em ser nação desde 1822. A nossa história nos mostra o quanto é recorrente este clima de conspiração para que o povo não vislumbre e nem se deslumbre com a democracia e de que um dia poderá construir uma sociedade sem as nossas seculares e profundas injustiças e desigualdades sociais.

Existem entre o ontem e o hoje tantas outras diferenças a começar pelo contexto da política internacional que naquele momento (anos 1960) se configurava pela chamada Guerra Fria, como também no contexto nacional sob o governo que pretendia encaminhar as Reformas de Base do Presidente João Goulart. Naquele tempo o conflito da Guerra Fria se expressava através de uma guerra de propagandas entre os sistemas sociais capitalista versus comunista, onde as potências mundiais e militares EUA e URSS faziam de tudo para defender, proteger e até mesmo expandir as suas respectivas áreas geopolíticas de influência ou de dominação. Aqui na América Latina, tradicional reduto do imperialismo norte-americano, a Guerra Fria tomou rumo de conflito revolucionário após a Revolução Cubana de 1959 e que devido às tentativas dos EUA em revertê-la, forçou a liderança cubana a buscar apoio da URSS e por extensão nova formulação social ao modelo do socialismo. Ponto. Então, havia o argumento dos golpistas conspiradores que segundo suas teses o comunismo estava rondando o Brasil para destruir nossos valores cristãos, subverter a nossa sociedade tão pacífica e ordeira. Argumentos que, no entanto, foram decisivos para arregimentar as forças conservadoras e retrógradas do país a apoiar os golpistas e ensejar a ditadura Civil/Militar de 1964. Como o presidente Jair Bolsonaro não tem a seu favor o mesmo contexto histórico e nem poderia ter, até porque nem existe mais a União Soviética e nem o chamado Bloco Socialista, agora só existem partidos socialistas e até com nome de comunista espalhados pelo mundo, mas em sua maioria inclusive aqui do Brasil disputando democraticamente eleições. Aí o Bolsonaro que sempre demonstrou apreço pela ditadura e conhece bem a fragilidade da nossa democracia nem esconde mais que conspira, olha só a ironia, contra si mesmo, pois é o primeiro presidente do Brasil a tramar golpe de Estado tendo ele sido eleito democraticamente. Decididamente não existe a não ser nas mentes de Bolsonaro e seus fiéis seguidores um contexto político para justificar golpe. Então, Bolsonaro faz de tudo para desestabilizar o próprio governo e o país, se indispondo contra os poderes do Judiciário e Legislativo, também contra a imprensa, enfim assumindo atitudes próprias de um ditador e assim assanhar e mobilizar conspiradores civis e militares para instalar a ditadura. Eu sei que está difícil sair disto tudo, mas é o temos no momento. Se nada mudar neste ano, quem sabe lá em 2022?