Opinião

A democracia contra a parede

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

20 de fevereiro de 2021

Parafraseando aquela piada antiga, “a democracia brasileira subiu no telhado”. Mas de piada não tem nada o atual momento político brasileiro, na realidade o que vemos são tragédias a não ser que mais de 240 mil mortos devido a pandemia e a logística do general Pazuello, sejam consideradas pilhérias! Senão, vejamos alguns fatos que demonstram que o nosso processo democrático que já não é lá uma Brastemp, está sendo ameaçado todo santo dia por declarações sejam de militares que fazem parte do restrito círculo do poder, por deputados governistas e até mesmo pelo próprio presidente Bolsonaro.

E não somente ameaças verbais, mas atos e atitudes bem nítidas foram e continuam sendo perpetradas como sinais claros de que caminhamos para um autogolpe, ou no mínimo, ensejando mais poderes ao presidente. Desde o primeiro ano do governo Bolsonaro que assistimos investidas contra o Poder Judiciário. Ainda são nítidas as imagens de bolsonaristas soltando bombas e fogos de artifícios na Praça dos Três Poderes em direção ao prédio do STF, simulando um ataque como de rajadas de tiros.

Intimidações claras e só faltou mesmo foi o filho presidencial o Zero3, o que queria ser embaixador nos EUA, chamar um cabo e um soldado para irem fechar o STF e prender os onze ministros. Durante os dois primeiros anos de governo Bolsonaro, as relações entre este e a Câmara e o Senado foram de animosidades, até porque Bolsonaro havia prometido em campanha eleitoral que não faria alianças com blocos parlamentares e muito menos com o Centrão.

Mas, nem tudo acontece conforme o prometido e combinado, daí que o Bolsonaro teve de rever suas promessas a partir da prisão do Fabrício Queiroz, ano passado, o que abriu a brecha de risco de impeachment e então para se prevenir nada como fazer o mesmo de sempre. O tal do “toma lá dá cá”.

Não é exagero esta tese de que um perigo real ronda em meio ao nosso processo democrático. Este negócio de dizer que não há clima para golpes de ditaduras porque as instituições estão funcionando e o mercado financeiro não quer é conversa fiada para boi dormir. Primeiro porque clima para golpes podem ser criados de uma hora para outra.

Cria-se uma crise institucional ou então um deputado pau mandado agride inconstitucionalmente o STF, como aconteceu esta semana e assim cria-se uma escalada de atritos entre os poderes e o poder que tem as armas dá o golpe final. Felizmente dessa vez o STF agiu rápido, agora se espera que a Câmara Federal tome a medida certa, ou seja, a cassação do truculento deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) para deixar claro que não existe mais espaço para aventuras fascistas.

Até aqui, nestes dois primeiros anos do desgoverno Bolsonaro a nossa democracia tem resistido bem, mas nada garante que daqui para frente resistirá! Como diz aquele velho bordão democrático “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Então fiquemos alertas e vigilantes, porque o espírito autoritário e ditatorial se fortaleceu e está bem vivo, haja vista que o governo Bolsonaro a começar pelo presidente são adeptos e simpatizantes de uma ditadura, como a de 1964 a 1985. São saudosistas daqueles tempos e jamais deixaram de lado suas fantasias golpistas.

Essa gente que chegou ao poder pelas vias democráticas tem uma visão unilateral da democracia, a tal ponto que usam da própria democracia para pregar fascismo e ditadura. Estão colocando a democracia contra a parede para colher ditadura. E o problema se torna grave porque apostam na falta de memória e na despolitização do povo brasileiro para levar adiante os seus maléficos propósitos.

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História