Opinião

A culpa é de quem?

Por Paulo Natir

3 de novembro de 2021

“Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com minha dor…”
Versos desse lindo samba do mestre Nelson do Cavaquinho foi a trilha sonora da competente jornalista Mirian Leitão no encerramento do programa Papo de Política transmitido pela Globo News – canal por assinatura exibido pela sky. A canção foi uma alusão ao comentário, feito na semana passada, pelo senador Flávio Bolsonaro (Patriota/RJ) – indiciado pela CPI – quando ele disse que seu pai receberia com uma característica gargalhada a notícia do relatório final da CPI da Covid.
Ainda durante a semana passada, um grupo de senadores, liderado por Omar Aziz (PSD/AM) promoveu uma peregrinação em Brasília para apresentar o relatório a diversas autoridades. A caminhada começou na Procuradoria da República passou pela na Câmara, Senado, Tribunal de Contas, Polícia Federal, Ministério Público Estadual, Supremo Tribunal Federal, entre outras instituições.
A comissão de investigação teve duração de seis meses quando foram realizadas 69 sessões. O objetivo foi avaliar ações e omissões do governo federal durante a maior catástrofe sanitária de nossa história. Com muita fé façamos hoje uma prece especial em homenagem a todos mortos vítimas dessa terrível doença. Rezemos também para as pessoas que ficaram com sequelas.
É bom lembrar que a CPI foi instaurada por determinação do STF que fez valer o Regimento Interno do Senado. Desde o início da pandemia o governo negou a gravidade do problema. O presidente fez inúmeras declarações relativizando a gravidade da crise.
Bolsonaro é um dos piores líderes no combate a Covid-22. Ainda bem que ele está sendo expulso das redes sociais. Suas ações sempre contrariaram protocolos básicos. Ele nunca foi favorável ao distanciamento social ou ao uso de máscara. Aconselhado por um grupo fora do governo – que ficou conhecido por gabinete paralelo – o presidente apostou na imunidade de rebanho como estratégia de controle da transmissão do vírus. Para promover ataques foi criado o gabinete do ódio. A última mentira disparada por ele foi que a vacina pode provocar Aids. Tem base?
Após recusar inúmeras vezes ofertas de imunizantes, o Planalto decidiu negociar com atravessadores. As transações envolveram empresas como a Davati Medical Supply e a Precisa Medicamentos. As tratativas revelaram personagens inimagináveis como o servidor Roberto Dias e o cabo da Polícia Militar, da vizinha cidade de Alfenas, Luiz Paulo Dominguetti. Essa turma foi privilegiada pelo Ministério da Saúde em detrimento da Pfizer e da coronavac, por exemplo.
Entre os 22 crimes apontados na CPI (Bolsonaro foi indiciado em nove), o caso mais aterrorizante, de fazer inveja a qualquer ditatura, foi o que envolveu a operadora de saúde Prevent Senior. A empresa é acusada de obrigar médicos a prescreverem aos pacientes medicamentos sem comprovação científica. Conforme a denúncia, nos casos de óbitos a empresa alterava os prontuários dos clientes para maquiar os números da pandemia. O lucro era prioridade. A morte era estimulada. “Óbito também é alta”, preconizavam os diretores. O escândalo chocou o país. O relatório da CPI também seria encaminhado para o Tribunal Penal de Haia para apurar crimes contra a humanidade.
Apesar do grande número de provas reunidas pela CPI é pouco provável que a PGR ou a Câmara aprofundem as investigações. Já disse aqui que o procurador Augusto Aras age como se fosse advogado da União. Já o presidente Artur Lira é membro do centrão – principal aliado de Bolsonaro.
O retrocesso do país atingiu principalmente nossa diplomacia. Justamente na área ambiental os danos foram maiores. Desde a Rio-92 o prestigio do Brasil foi crescendo. Até chegar a era Bolsonaro. Hoje o presidente brasileiro corre de Glasgow, na Escócia, onde acontece mais uma conferência mundial do clima. Antes na vanguarda, hoje o país é pária mundial. Praticamos uma política contra o meio ambiente. As emissões de poluentes aumentaram em plena pandemia. Estamos pagando um preço muito alto por essa política suicida. Tenho esperança que os políticos consigam concentrar esforços em uma terceira via visando as próximas eleições. É muito triste votar em alguém para impedir a vitória do adversário. Isso está destruindo o Brasil. Voto não tem preço, mas tem responsabilidade. Para mudar nosso astral no feriado vamos comemorar o anúncio da Flipassos – a Feira de Literatura Passense foi notícia no jornal “O Estado de Minas” e nessa edição vai homenagear o grande mestre Gilberto Abreu. A comunidade agradece muito!