Opinião

“Mentes perigosas”, de Ana Beatriz Barbosa Silva

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

23 de junho de 2022

Desta vez não estamos no terreno da ficção literária, mas no do estudo ou ensaio sobre um tema relativo ao comportamento humano. Trata-se do livro “Mentes perigosas”, com o subtítulo “O psicopata mora ao lado”, de Ana Beatriz Barbosa Silva.

Ana Beatriz é médica graduada pela UERJ, com pós-graduação em psiquiatria pela UFRJ, além de professora, palestrante e escritora de outras obras que abordam variados aspectos próprios da mente e das emoções. Foi também diretora das clínicas “Medicina do Comportamento” no Rio e em São Paulo.

Não tenho dúvidas de que a grande maioria das pessoas costuma praticar o bem. Também nunca aderi a certos pensamentos trágicos, que lançam a tudo e a todos numa espécie de pântano em que predominam os maus sentimentos, as más atitudes, a crueldade, a busca incessante pelo poder a qualquer custo e os puros interesses individuais.

Não se deve, porém, esquecer de que o mal existe, de que pessoas ruins existem e de que os atos praticados por quem quer que seja e sem um mínimo de consciência e sensibilidade para com o prejuízo e o sofrimento alheios podem ser devastadores, ou, no mínimo, ostentarem um imenso potencial de destruição. Sempre foi assim.

Em razão disso, trago à baila, novamente, um texto sobre “Mentes perigosas”, uma obra que li em 2009 e sobre a qual aqui publiquei minha opinião naquele já distante ano. Sua leitura nos amplia o horizonte sobre os tipos e níveis de psicopatas. À época, o livro fez bastante sucesso e gerou forte repercussão.

Sempre que se fala em psicopatia ou psicopatas, o que nos ocorre, em geral, é que, movidos pelo senso comum, quase sempre imaginamos que tais seres se resumem a assassinos frios e cruéis que matam por prazer, ou a pedófilos, estupradores e outros delinquentes de alta periculosidade.

Entretanto, a tese defendida por Ana Beatriz Barbosa é que a psicopatia apresenta diversos níveis e não inclui apenas os criminosos bárbaros que os testes clínicos apontam como psicopatas. O livro é perturbador, como afirma a novelista Glória Peres, uma das convidadas a tecer, em forma de prefácio, alguns comentários iniciais, ao lado de um advogado criminalista e de uma psiquiatra forense.

Para a autora, os psicopatas se subdividem nos níveis leve, moderado e severo, este último a abranger os que realmente impõem grandes riscos de vida para as vítimas. Procura, todavia, demonstrar a existência dos outros grupos, que classifica de leves e moderados, com exemplos de depoimentos de vítimas e casos trazidos pela imprensa.

Psicopatas, conforme ela expõe, são também quaisquer pessoas desprovidas de consciência, senso moral, sensibilidade, sentimentos e emoções. Pessoas, em suma, para quem o outro é um mero objeto, pessoas que não hesitam em ludibriar, trapacear, usurpar de situações e abusar do poder em cargos públicos ou privados com o intuito de proveito exclusivo para si mesmos.

São indivíduos aparentemente agradáveis, mas incapazes de amar e sem nenhuma responsabilidade ética. Indivíduos para os quais as inter-relações só lhes servem para obter algum alcance de ordem financeira, profissional ou para a satisfação do próprio ego. Uma vez atingida a finalidade maquiavélica, basta descartar as pessoas que usaram para seus objetivos.

Independentemente de teses sobre doenças mentais, faça o leitor um pequeno exercício de memória e perceberá que, embora não sejam maioria, esses indivíduos possuem um alto poder de destruição da vida alheia, das instituições públicas, das empresas particulares, dos governos, dos países e até do planeta, tudo a depender do alcance que ostentam no que executam.

Há um capitulo em que Ana Beatriz se refere aos psicopatas do mundo profissional. São aqueles sujeitos dissimulados que visam ao topo de suas carreiras e ao máximo de dividendos, nem que, para tanto, tenham que prejudicar os que se interpuserem em seus caminhos. Alto teor de realidade. É hora de depararmos então, no texto da obra, com exemplos de policiais, banqueiros, empresários, executivos, integrantes do mundo jurídico, médicos e líderes religiosos, todos envoltos em delitos vários, mas sob o manto da mais pura honestidade.

Na esteira de suas considerações, a autora dedica especial atenção ao campo político. Não poderia ser diferente. Segundo expressa, “ poucos cargos (como os políticos) permitem um exercício tão propício para a atuação dos psicopatas.” No Brasil, acrescenta, “ esse fenômeno torna-se mais gritante porque a impunidade funciona como uma doença crônica. . .”

Uma atualização do livro para os dias atuais talvez viesse com algum capítulo sobre os níveis de psicopatas do mundo virtual, indivíduos capazes de atrocidades a distância e, muitas vezes, sob perfis faltos, tão intensas são as comunicações tecnológicas hoje em dia.

Ana Beatriz apresenta ainda estudos históricos a respeito da psicopatia, mas é incisiva ao afirmar que. Infelizmente, não existem tratamentos clínicos tão eficazes, pois o psicopata não sofre e, ao não sofrer, nem almeja, nem procura alternativas de cura.

Concorde-se ou não com seu relato sobre essa doença tão complexa, estamos perante uma obra que nos impele a reflexões sobre nossa conduta perante o outro, perante o mundo. Leiam-na, então conversamos.

 

 

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna ([email protected])