Opinião

O Estado contra os velhos

31 de março de 2025

Foto: Reprodução

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

O Brasil tem nome para tudo. Cria-se um programa para fingir progresso, um decreto para dar ares de legalidade ao caos, um slogan para vender promessas vazias. Mas qual o nome desse fenômeno que condena os velhos, os desvalidos, os seres invisíveis? Como chamar essa máquina impiedosa que esfacela e tritura os vulneráveis enquanto acaricia os donos do sistema?
A cena se repete, dia após dia. Um idoso, capengando, arrasta-se até a agência bancária que administra sua mísera aposentadoria. Em Passos, na quinta-feira (27/03), um desses tantos anônimos chegou à agência bancária às 14h e poucos minutos, depois de vencer dores reumáticas e a lentidão dos passos. A agência, beneficiária do INSS, foi seu destino, mas o relógio do descaso já havia decretado seu veredito: o atendimento encerrara às 14h.

Ele tenta argumentar, explica que veio de longe, que precisa de ajuda para obter um simples extrato bancário – um pedaço de papel que deveria ser um direito, não um favor.
A resposta vem fria, indiferente, ensaiada como o brilho dos ternos e vestidos impecáveis dos funcionários da agência: “Volte amanhã”.

Voltar? Com que forças? Com que garantia de que amanhã será diferente? O que deveria ser um serviço ao cidadão transformou-se em um campo de tortura burocrática. O que o separava dos funcionários eram portas fechadas e divisas de vidros. Atrás delas, eles seguiam seus afazeres, e entre eles há um que nunca para: as ligações oferecendo empréstimos consignados. Para isso, não há expediente encerrado. Funciona 24 horas por dia. O banco fecha para o direito, mas nunca para o lucro.

O Estado brasileiro, de tão podre, tornou-se cúmplice dessa crueldade. Aposentados sustentam lares onde há filhos desempregados, mulheres idosas e doentes, netos, até os animais de estimação, que, em tempos de crise, também se tornam vítimas do abandono.

E onde estão as autoridades? Qual a justificativa para esse descaso? Na lógica do poder, os idosos não rendem votos, não marcham em protestos, não são força de trabalho explorável. Para o sistema, são apenas números prestes a desaparecer. Uma geração inteira que construiu este país agora é tratada como fardo.

Que nome dar a isso? Chamemos pelo que é: uma política de extermínio silenciosa, um darwinismo social institucionalizado. Não há fuzilamentos, mas há a indiferença. O horror do nazifascismo chocou o mundo; o horror da negligência e da exploração financeira dos aposentados choca apenas quem ainda se importa.

Mas nem todos os velhos estão se entregando ao abandono, sucumbindo à indiferença com o corpo e a mente encolhendo-se no esquecimento. Há os que resistem. Os que ainda detêm o poder da palavra, que escrevem, denunciam, ocupam espaços na mídia, fazem barulho. Até quando?

O Brasil não mata seus velhos com gás, como fizeram os nazistas. Mata-os aos poucos, asfixiando-os com a fome, a desesperança, a falta de acesso à saúde, o desprezo estatal. Descarta-os para o além e enxuga folhas orçamentárias. O abuso é impiedoso, mas também previsível: um Estado que não respeita seus velhos, um dia se verá sem memória, sem honra, sem alma. E quando esse dia chegar, quem contará a história? Quem lembrará dos que vieram antes? Quem cuidará dos que ainda restam?

O Brasil precisa despertar, antes que seja tarde. Antes que a dignidade seja varrida para fora, chutada para o esquecimento junto com os últimos segundos antes das 14h.

Salvem os velhos. Salvem a memória. Salvem aquilo que ainda resiste, antes que o último vestígio de dignidade seja apagado.
Porque uma nação que abandona seus velhos já começou a ruir por dentro. A dignidade não é um luxo, mas a base sobre a qual se ergue uma sociedade justa. O respeito aos que vieram antes não é caridade, é dever. Se ainda nos resta um traço de humanidade, que ele se manifeste antes que nos tornemos órfãos da nossa própria história.

Enquanto isso, no celular, uma mensagem chega: “Luiz, tenho uma novidade para você, saia do aperto e acabe com as dívidas”. E junto, um coração azul!

A máquina não para. O banco que nega o direito se apressa a vender o endividamento. O lucro nunca dorme.

            Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho, advogado, escreve aos domingos nesta coluna. (luizgfnegrinho@gmail.com).