Música

João Gilberto ganha álbum-tributo

10 de junho de 2021

Músico baiano, que chegaria aos 90 anos neste 10 de junho, tem 15 gravações conhecidas novamente arranjadas :/ Reprodução

Vinicius de Moraes falava que “o futuro é o passado melhorado”. Era outra vida e o otimismo do poeta Vina hoje, algumas décadas, governos e uma pandemia depois, pode parecer estranho. Menino, Mario Adnet estava por perto ouvindo o que Vinicius dizia. “O futuro é o passado melhorado”, repetia a si mesmo. A alguém que transformaria a devoção aos mestres em uma série de tributos a partir de 1999, com o álbum Para Gershwin & Jobim, a frase caía como um belo acorde a solucionar uma velha canção. Alguns poucos artistas dedicam suas vidas tentando melhorar o passado, o que não significa fazer melhor, mas trazê-lo, revigorá-lo, reabrir suas possibilidades, chamar a atenção para a sua existência e mediá-lo com os novos tempos. Adnet, agora, vai ao passado de um especialista em reformas e melhorias de passados: João Gilberto.

Às vésperas dos 90 anos que João faria nesta quinta, Mario Adnet apresenta sua primeira entrega integral à obra do baiano de Juazeiro. João Gilberto Eterno tem 15 composições gravadas por João, rearranjadas por Mario e distribuídas para uma série de convidados ligados ao universo da bossa nova, uma gente que inclui João Donato, Guinga, Mônica Salmaso, Joyce Moreno, Rosa Passos, Leila Pinheiro, Lisa Ono, Moreno Veloso, Daniel Jobim e, além da presença do próprio Mario em algumas faixas, sua filha Antonia e seus irmãos Chico, Maucha e Muiza.

O álbum foi gravado em muitos estúdios e sessões diferentes. As cordas foram feitas pelos russos da St. Petersburg Studio Orchestra, em São Petersburgo, na Rússia. Naipes com 12 violinos, seis violas, quatro violoncelos e dois contrabaixos – básico mas raro em um álbum brasileiro antes mesmo da pandemia. Outras gravações foram feitas no Rio, em São Paulo e em Tóquio. A assinatura da coprodução, ao lado de Mario, é do lendário Shigeki Miyata, japonês que produziu o álbum lançado no Japão, Live in Tokyo, de 2004. Não por acaso, a editora e o selo responsáveis são os mesmos de João no Japão, a Road & Sky Publishing, da Universal Classics & Jazz. Uma saída um tanto estratégica que acelera o processo das liberações exigidas para as obras de João no Brasil.

As faces escolhidas por Mario são muitas, desde a mais famosa delas a outras pouco lembradas. Garota de Ipanema, de Vinicius e Jobim, é o João moderno e estelar, de 1964, lançada com o saxofonista Stan Getz depois que o cantor Peri Ribeiro a colocou no mundo pela primeira vez sem fazer o mesmo estardalhaço, em 1963, em seu álbum Peri É Todo Bossa. Só mesmo quando João a gravou com Getz e a voz pequenina da então mulher Astrud Gilberto foi que tudo começou. Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e mais de 200 artistas tentariam imprimir novos frescores àquela fotografia de um instante eterno. Sua reconstrução por Mario Adnet, com as vozes reverenciais de Daniel Jobim, Dora Morelenbaum e do próprio arranjador, tem um pensamento arquitetônico e cheio de referências: trechos, introdução e final fazem discretas citações a frases e células que Jobim e João usavam em diferentes momentos. Uma engenharia de memórias.

“Sei que muitos preferem trabalhar com a desconstrução para colocar sua personalidade. Eu gosto da pesquisa, de procurar o frescor. E mesmo as canções mais batidas têm esse frescor”, diz Mario.