Música Destaques

Crítica social no ‘Álbum Laranja’

Por Danilo Casaletti / Especial

30 de julho de 2021

Tico Santa Cruz e Os Detonautas: banda formada na internet;/ Bru Kaiuca

“O indiferente não se importa, ele só quer poder/ Fará o possível e impossível pra sobreviver/ Como um inseto pestilento em reprodução/ Fatia o bolo entre a família sem preocupação.” Quando Tico Santa Cruz postou a música Carta ao Futuro, que traz esses versos, no Facebook, em julho de 2020, viu que as mais de 100 mil visualizações em poucas horas não eram à toa. Existia ali um público do Detonautas, banda da qual ele é vocalista, que estava interessado em política e em questões sociais.

A canção é uma das faixas do recém-lançado Álbum Laranja – outros sete singles foram lançados ao longo de um ano e outras duas canções inéditas, além de uma versão acústica de Carta ao Futuro, compõem o repertório. O título é uma referência ao álbum branco dos Beatles (1968) e ao preto do Metallica (1991) e também ao caso das suspeitas de candidaturas laranjas no PSL em Minas Gerais, de 2019.

O governo de Jair Bolsonaro e seus apoiadores são alvos em algumas canções, como Kit Gay, que fala em “soldado do mito” e “guardião do Capitão”; e em Micheque, que aborda o caso das movimentações suspeitas na conta do ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que trariam depósitos para a primeira-dama Michelle Bolsonaro – em maio deste ano, o Supremo Tribunal Federal arquivou a investigação a pedido da Procuradoria Geral da República. Na faixa Roqueiro Reaça, a banda critica adeptos do gênero que apoiam valores autoritários.
Em letras como Fique Bem e Clareiras, a banda abre para questões que refletem a fragilidade diante da pandemia, como medo e a falta de liberdade. Aliás, um outro disco da banda, já gravado, vai trazer canções de cunho mais existenciais – Álbum Laranja, pelo tema, acabou se impondo a esse lançamento.

Em entrevista por telefone, Tico falou sobre a opção de lançar um disco de crônicas sociais e políticas – ele prepara um livro para falar de sua atuação no ativismo político – haters, sexualidade e os caminhos do rock brasileiro.
O primeiro single do álbum foi Carta ao Futuro. Indagado se àquela altura o grupo tinha a ideia de fazer um álbum com essa temática social e política, Tico conta que, como compositor da banda, com a pandemia, passou a ter uma rotina mais próxima do violão, algo muito difícil quando esta em turnê.

“Compus um disco inteiro, que será lançado no final deste semestre. Em julho do ano passado, fiz o Carta ao Futuro e percebi que ela tinha uma temática diferente das outras músicas que eu tinha feito, que são mais existenciais. Postei no Facebook, de madrugada, em uma versão voz e violão. Quando acordei, no outro dia, já tinha mais de 100 mil visualizações, o dobro de Fique Bem, que foi a primeira que lançamos na quarentena. Cheguei para a banda e disse que era preciso refletir. As bandas de rock do mainstream não têm abordado a questão política, ou fazem algo muito pontual. Resolvemos, então, gravar essa música para lançar. O Marcelo Sussekind, que estava produzindo o outro disco, decidiu não participar. Fizemos a produção por nossa conta. Quando lançamos Carta ao Futuro, ela bateu 500 mil visualizações no YouTube. Entendemos que existia um caminho, uma abordagem mais política e social, embora os Detonautas tenham músicas que falam sobre esses temas desde 2002”, conta.