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Bethânia dedica Noturno a sobreviventes

31 de julho de 2021

Maria Bethânia conta que ficou em casa: “escondidinha, quieta, mas com Deus”./ Divulgação

Claro e escuro; doce e amargo; alegre e triste. É por meio dos contrastes que Maria Bethânia reencontra-se com seu público. Com lançamento realizado ontem em CD e nas plataformas digitais, “Noturno” (Biscoito Fino) reúne em 12 faixas a tradução que a cantora fez para os últimos 16 meses. “É vida através da morte, da alegria, da força, dos esforços. Vida através da luz, afinal”, afirma Bethânia.

Em 13 de março de 2020, a cantora estava em São Paulo, onde faria um show. Quando a apresentação foi cancelada, Bethânia voltou para sua casa, no Rio de Janeiro, e pouco saiu de lá desde então.

“Saí para a live (em fevereiro passado), para duas gravações e para fazer o disco. Levo toda a situação de forma seriíssima. Não poder me expressar me deu muita agonia. Então tive necessidade de fazer o disco. Disse: ‘me consigam as condições sanitárias que vou cumprir todas’”.

Em setembro do ano passado, foi para o estúdio de sua gravadora, a Biscoito Fino, para dar início a um processo rápido – foram duas semanas e meia de gravações bastante solitárias. Pela impossibilidade do encontro, parte do repertório foi registrada com apenas um ou poucos instrumentos.

Voz e violão (de 7 cordas, de João Camarero, caso de “Vidalita” e “Música música”); voz e piano (de Zé Manoel, nas faixas “Bar da noite” e “A flor encarnada”); voz, violão de 7 cordas e acordeon (“O sopro do fole”, com Pedro Franco e Toninho Ferragutti, respectivamente).

Diretor musical e arranjador, o maestro baiano Letieres Leite, que vem trabalhando com a cantora desde o show “Claros breus” e o álbum “Mangueira: a menina dos meus olhos” (ambos de 2019), esteve somente por duas vezes no Rio para conduzir o trabalho.

As cordas, que aparecem nos arranjos de “Lapa santa” e “Prudência”, foram gravadas depois. Xande de Pilares, que divide os vocais com ela no samba “Cria da comunidade” (parceria com Serginho Meriti) só registrou sua voz depois que Bethânia havia gravado a dela.

“Eu sou mais rígida do que os protocolos, sou insuportável. Tenho medo, ainda não dá para encontrar muita gente”, diz ela. “Noturno” tem um forte diálogo com “Claros breus” – “Luminosidade”, “Bar da noite”, “Música música” foram pinçadas do repertório daquela turnê.

O novo álbum, de certa maneira, foi antecipado na live que ela realizou no início deste ano – “Dois de junho”, a canção de Adriana Calcanhotto que relata a morte do menino Miguel, no Recife, há um ano, e que tanto impactou o público quando interpretada na voz de Bethânia, também está no repertório.

Bethânia dá o seu recado com sutileza. As canções contam uma história até mesmo na ordem em que são apresentadas no álbum. “Lapa santa” fala de religiosidade de uma Bahia do interior, enquanto “De onde eu vim” remonta a saudade que ela tem de seu estado natal – nunca ficou tanto tempo sem ir à Bahia.

Já a explosão de alegria de “Cria da comunidade” mostra um Brasil colorido – um mesmo país “negro e racista”, como denuncia “Dois de junho”, a canção que vem na sequência.

Cada uma das faixas recebeu sua própria dedicatória, “modo de mostrar minha saudade das pessoas”, explica Bethânia, que dedicou “Prudência” “aos corações inquietos” e “Música música” aos sobreviventes. O encarte, à sua maneira, também homenageia aqueles que sofreram com a pandemia.