Música

Autor de clássicos da MPB, Aldir Blanc morre de covid-19

5 de Maio de 2020

Sem recursos para manter o pai internado, a filha Isabel chegou a pedir doações para fazer a transferência e o tratamento.

O escritor e compositor Aldir Blanc morreus aos 73 anos na madrugada desta segunda, 4, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Ele estava com covid-19 e seu quadro de saúde era considerado grave. Havia sintomas de infecção urinária e de pneumonia. Sua filha Isabel, sem recursos para manter o pai internado, chegou a pedir doações para fazer a transferência e o tratamento do artista em uma página de Facebook.

Aldir Blanc deixa uma das obras poéticas mais robustas à música brasileira, sobretudo com suas composições a partir da parceria com João Bosco, nos anos 1960, para servirem Elis Regina de material fresco. Vieram “Bala com Bala”, “O Mestre-Sala dos Mares”, “Caça à Raposa” e “O Bêbado e a Equilibrista”, de 1979, assumida pelo País como uma espécie de hino contra a ditadura militar para celebrar a volta dos exilados políticos ao Brasil com a garantia de que não seriam presos pelos militares.

Ela se tornaria sua obra mais conhecida, com versos que ficariam maiores que seu próprio nome, como “A lua, tal qual a dona de um bordel / Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel.” Era uma pequena mostra de como pensava Aldir, juntando gente mundana com a lua das realezas, dando vida à estrela e criando expressões como “um brilho de aluguel.”Aldir era Aldir Blanc Mendes, um carioca nascido a 2 de setembro de 1946.

Um médico especializado em psiquiatria que deixou de clinicar em 1973 para se dedicar apenas à composição. Antes, já vinha tateando o meio artístico criando “A Noite, a Maré e o Amor” em 1968, com Silvio da Silva Junior, para o 3º Festival Internacional da Canção da TV Globo. Um ano depois, classificou outras três para outro festival, o Universitário da Música Popular Brasileira. “De Esquina em Esquina” (com César Costa Filho), foi defendida por Clara Nunes; “Nada Sei de Eterno” (feita com Sílvio da Silva), teve a interpretação de Taiguara; e “Mirante” (com César Costa Filho), veio na voz de Maria Creuza. Depois de mais festivais, buscou novos parceiros, como o violonista Guinga, com quem fez “Catavento e Girassol”, “Nítido e Obscuro” e “Baião de Lacan”, entre vários outras.

As últimas duas décadas foram de pouco convívio entre Aldir Blanc e o mundo que não lhe interessava. Cada vez mais, entrevistá-lo se tornava uma missão improvável, quase impossível, preferindo o e-mail ao contato pessoal ou telefônico. Recluso, era como se Aldir estivesse farto de oferecer flores ao deserto, lembrando um personagem do cineasta Pedro Almodóvar. Ao apontar para um poeta de braços cruzados, um homem diz ao outro: “Veja, aquele é um dos maiores poetas deste século.” “É mesmo, e eu posso falar com ele?” “Não, ele não escreve nem fala mais. De uns tempos para cá acha que o mundo não merece mais as suas palavras.”

Julio Maria/ Especial